Hipnose no futebol: o sucesso começa na mente

Espiral hipnótica

Não são mitos, nem lendas. Monstros ou fantasmas. A hipnose não é tudo… é o início de tudo! Porque a nossa mente é a nascente do sucesso.

A hipnose no futebol é uma ferramenta poderosíssima, com resultados rápidos e muito concretos. Consiste num estado relaxamento, físico e mental, que permite ter a mente muito mais focada num determinado tema ou situação, abstraindo das distrações externas (Boim, 2021). Este relaxamento levará o futebolista a um estado de transe, que é induzido de forma gradual (8 a 10 minutos), através da fadiga sensorial provocada pelo uso de uma voz muito calma e monótona, ou de forma mais repentina (8 a 10 segundos), apesar desta ser menos comum. Existem pessoas que não conseguem atingir um estado muito profundo, mas isso em nada afetará a forma como estas poderão assimilar as sugestões dadas pelo hipnoterapeuta durante o transe (Leite et al., 2016).

Como a hipnose atua ao nível do subconsciente, a assimilação do “programa” que vai ser “instalado” na mente do futebolista torna-se muito mais efetiva e eficaz (Leite et al., 2016). Mas estas palavras não passariam de um discurso floreado de psicologia, se não pudéssemos ver, com os nossos próprios olhos, uma demonstração prática da hipnose… tal como aconteceu antes da histórica reviravolta do Barça vs. PSG para a Liga dos Campeões.

Nota: o vídeo seguinte cinge-se apenas a demonstrações de hipnose que em nada estão relacionadas com a performance desportiva – essa intervenção não está publicamente disponível. No entanto, é possível aferir como a mente reage aos estímulos do hipnoterapeuta.


Hipnose no futebol: como tudo acontece

Uma sessão de hipnose pode ser conduzida por um profissional da área ou realizada pela própria pessoa, numa perspetiva de auto-hipnose. Em Portugal, o Doutor Alberto Lopes assume-se como uma das maiores bandeiras da hipnoterapia, tendo atingido excelentes resultados no tratamento e mesmo cura de casos de ansiedade, depressão, medos e fobias, traumas ou perturbações obsessivas compulsivas. No âmbito do desporto, a Hypno Coach, de Jorge Boim, presta um serviço de coaching de alta performance, sendo procurado por profissionais de alta competição. De acordo com este (Boim, 2021), uma sessão de hipnose divide-se em três momentos:

  1. Identificar a situação que pretendemos trabalhar nessa sessão.
  2. Realizar o exercício de hipnose adequado à situação e ao caso a trabalhar.
  3. Contextualizar do processo já depois do despertar da hipnose.

O seguinte áudio pode – e deve – ser escutado num profundo estado de relaxamento, sem ruído, de preferência com os olhos fechados. No entanto, é de referir que só com muito treino é possível atingir um estado de transe, no qual todas as “sugestões” dadas são absorvidas com grande capacidade de assimilação.

Sessão de hipnose, por Jorge Boim

Recorri à Hypno Coaching, para ultrapassar o receio de nadar em águas abertas. Estando habituada a nadar em piscina, e adorando o mar, não esperava que num ambiente de prova de mar sentir pânico na água. Mas toda a envolvência, a dificuldade na navegação, o barulho e a confusão, fizeram com que desistisse. E o receio que tal voltasse a acontecer, começou a criar ansiedade, mesmo nos treinos. Com poucas sessões, consegui começar a nadar no mar sem essa ansiedade, e completei a minha primeira prova. Aprendi a reconhecer os primeiros sinais de que a ansiedade pode disparar, e treinei a forma de evitar que escale.

Testemunho da triatleta Carla Barbosa sobre a Hypno Coaching, de Jorge Boim

Como a hipnose no futebol pode melhorar a performance do atleta

No âmbito do desporto – e do futebol, em particular – Boim (2021) afirma que a hipnose pode ser realizada de forma continuada, para identificar a origem de eventuais casos de falta de confiança, ansiedade e medos. Pretende-se ressignificar esses acontecimentos, alterando o “filme” da mente do atleta, com recurso ao amor próprio, autoestima e autoconfiança, que trabalharão ao nível do subconsciente, “guardando” a memória em questão com um “final feliz”. Já no período pré-competitivo, “podemos pré-programar estados emocionais positivos no atleta, através de estímulos externos identificados, para potenciar a moral e confiança do atleta no momento da competição”.

Com os desportistas em transe, a suscetibilidade aumenta, sendo a partir daí que se inicia um autêntico treino mental. Posto isto, é altura de trabalhar a concentração e frieza na hora de finalizar ou de bater um penálti decisivo, projetando na mente o evento e o desfecho desejado, com a bola a beijar a rede. Ou mesmo aperfeiçoar o controlo emocional de um jogador que ferve em pouca água, com uma visita a uma situação passada e que, desde então, deixou um rasto que se prolongou até aos dias de hoje. Até a motivação pode ser exponenciada, sendo esta a raiz para vários êxitos dentro do campo (Leite et al., 2016).

Também se pode utilizar a hipnose para a recuperação de lesões físicas e no alívio da dor. Por exemplo, o Doutor Alberto Lopes conseguiu fazer com que mulheres em situação de parto não sentissem qualquer sacrifício durante o mesmo, “convencendo-as” do que tudo correria sem sobressaltos. No âmbito desportivo, é possível “aplicar gelo sem gelo”, recorrendo à hipnose e sugerindo à mente do paciente em causa de que o gelo já estará sobre a lesão sofrida, o que despoleta uma ação fisiológica do cérebro sobre todo o corpo.

Se o leitor estiver com muita fome e apetite e perder alguns minutos a pensar num bolo de chocolate, cortado com uma faca que lentamente desliza sobre a sua fofura, vendo com nitidez na sua mente o chocolate a sair à medida que a faca o corta, certamente que o seu corpo vai sofrer algumas alterações, sendo o salivar a mais comum. Isto não é nada mais, nada menos, que a hipnose no estado mais puro e natural, que todos os dias nos impacta de certa forma. Agora, imagine o seu poder levado ao extremo.


Curiosidades e mitos sobre a hipnose

No livro Ser Profissional no Amador, os autores Leite et al. (2016) são muito taxativos nas respostas a algumas questões:

  • Todas as pessoas são hipnotizáveis. O Doutor Lopes (2021) dá o seguinte exemplo: quantas vezes já fomos dum ponto ao outro a pensar em determinados assuntos, ficamos imersos nesse pensamento e, de repente, “despertámos” e pensámos “como é que eu vim até aqui, decidi corretamente quais os caminhos e só agora me apercebi que cheguei?”.
  • Ninguém perde o controlo e faz coisas que não quer! Se o hipnoterapeuta pedir o código bancário, o hipnotizado está perfeitamente consciente e certamente irá recusar (Lopes, 2016). Esqueçam os desenhos animados, em que o hipnotizador tenta fazer com que a outra pessoa aja como uma galinha.
  • Não existe o risco de não acordar de transe.
  • Hipnose não é o mesmo que dormir!

Hipnose, Coaching, PNL e Mindfullness

A hipnose está na origem de outras técnicas que frequentemente lhe estão associadas, como o coaching, a programação neurolinguística (PNL) e o mindfullness (Lopes, 2021).

Em relação às duas primeiras, são conjuntos de técnicas, utilizadas para fins terapêuticos, de crescimento e desenvolvimento pessoal e emocional e, claro, de melhoria da performance desportiva dos atletas. Contudo, a hipnose permite aceder ao subconsciente de forma mais eficaz, com menos obstáculos, trabalhando ora a) a origem dos problemas, ora b) a preparação de comportamentos, sensações, emoções e pensamentos em situações futuras, projetando aquilo que desejámos que ocorra (Boim, 2021).

Os autores (Leite et al., 2016) descrevem as suas intervenções de PNL de como um exercício em que “o futebolista fecha os olhos, respira fundo e relaxa profundamente, […] para que consiga entrar num transe “superficial”, que permita trabalhar a informação e fazê-la chegar ao nível do subconsciente, com base em linguagem metafórica”. Quanto ao mindfullness, Boim encara “como a capacidade de viver mais focado em nós mesmos e no presente” (Boim, 2021).

A hipnose é muito mais que uma “conversa de psicólogo”, com poucos os nenhuns efeitos práticos. Pelo contrário, é uma técnica tão antiga quanto a própria humanidade, que não recorre a meios artificiais para (re)programar a mente das pessoas, com regressão a memórias passadas ou projeção do futuro com o desenlace que queremos. A hipnose não é tudo – é o início de tudo! E é aqui que, no âmbito desporto, também podemos começar a trilhar um caminho de sucesso…


Bibliografia

Boim, J. (5 de Maio de 2021). A hipnose no futebol. (“Y”. “Touré” (alcunha do autor do Lateral Esquerdo), Entrevistador)

Leite, B., Dinis, E., Escudeiro, J., Coutinho, R., & Escudeiro, V. (2016). Ser Profissional no Amador. Prime Books.

Lopes, A. (2016). Hipnose: Mitos e Aplicações. TedX ISCAP. Porto.

Lopes, A. (31 de Março de 2021). (“Y”. “Touré” (alcunha do autor do Lateral Esquerdo), Entrevistador)

Sobre Yaya Touré 27 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

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