Inter de Conte e City de Guardiola. Uma reflexão-convite ao entendimento da Cultura Táctica

(Nota: Esta é a primeira de um artigo de duas partes. A segunda será publicada dentro de poucos dias.)

Táctica, componente agregadora, uma dimensão vista, na óptica deste artigo como uma dimensão Cultural. Cultura na medida em que construída, processual, dinâmica, evolutiva.O Modelo de Jogo, também ele um emergir dinâmico, cuja concepção extrapola um carácter estanque e abstracto, sim observável.
Inter de Conte e City de Guardiola, são exemplos escolhidos, porque elucidativos creio, de pontos-mote para uma reflexão sobre o entendimento do conceber uma Cultura de jogo, da sua importância, lógica subjacente e pertinência que do meu ponto de vista encerra no futebol de hoje.

A coerência de Conte

A coerência expressa-se na regularidade, na invariância de um padrão, visto sob o ponto de vista Macro, o que dá identidade àquele jogo.“Cabeça, Coração, Pernas”, palavras de Conte, antes de tudo uma Filosofia, uma forma de estar, parece.Construção segura, a bola e os jogadores movem-se em sintonia na procura de progredir, a agressividade/intencionalidade que imprimem na mudança de ritmo ao descobrir o espaço. Desdobramentos fluídos e, esta época, pareceu-me, mais variabilidade, melhor qualidade e consistência no definir o último passe e no criar situações de golo.Alicerçada no 3-5-2, dois dos três defesas abertos, o defesa do meio ora em linha ora a saltar um pouco, a bola e os jogadores movem-se articuladamente ajustando-se à pressão do adversário. Médios basculantes e a dar apoio perto, laterais que reconhecem o apoiar ou aguardar mais subidos. A utilização de apoios frontais (avançados, Lukaku, Lautaro, Alexis) para depois encontrar homem de frente e, aí, com poder de decisão sobre o jogo, vê-se toda a agressividade do jogo de Conte: um jogo intencional, agressivo, colectivo, na procura de controlar o mesmo, condicionar e ferir o adversário.

Dinâmicas com invariância, consolidadas em dois anos de Inter (mas também antes expressas também na Selecção Italiana e Chelsea).
A coerência advém do Treinador ser fiel a uma Ideia que lhe está entranhada. A Invariância não é neste caso, previsibilidade. Ela foi a base, creio, para um emergir durante dois anos de uma Cultura de Jogo cada vez mais consolidada mas também mais imprevisível e com maior variabilidade, por se alimentar também ela do imprevisível e circunstancial. Factos Colectivos e factos individuais (Lukaku sobre Conte).

As origens de Guardiola

“Regressar ao passado, aos nossos princípios, bom jogo posicional, mover a bola rápido, correr menos com bola””Voltámos a fazer o que fazíamos em épocas anteriores, com os extremos mais abertos e mais altos, com os jogadores posicionados, a esperar que a bola lhes chegue. Assim a circulação é mais rápida e quando perdemos a bola estamos bem posicionados para transitar.” (Pep Guardiola)

Os jogos com Tottenham (derrota 2-0) e West Bromich (empate 1-1) foram, sob o ponto de vista de Guardiola, momentos de viragem para 21 vitórias seguidas, record em Inglaterra. A sensação de o jogo se ter tornado algo desagradável, um não reconhecimento da sua Equipa, um jogo que não era o seu.
Essencialmente, princípios, vistos como agregadores culturais. Tê-los como tema de fundo significa a sua presença ininterrupta, quer no plano simbólico (a imagem mental, o que dá significado ao que é feito), quer no plano operacional. Da intenção prévia àquilo que realmente acontece nunca será exactamente igual, porque o Modelo de Jogo é literalmente um processo vivo. Daí a Cultura necessitar também do imprevisível para emergir. Mas SEMPRE com a ideia na cabeça da Equipa. E isso têm evidenciado as equipas de Guardiola com fartura.

O aqui e agora circunstancial como condição para a evolução cultural

Nesta concepção de Modelo dinâmico e evolutivo, evidencio a necessidade de essa evolução, para acontecer, acontecer num contexto, numa redundância – assente em questões essenciais, nomeadamente, e como acabei de referir, a presença ininterrupta dos Grandes Princípios – mas também e necessariamente na variabilidade, na espontaneidade, do que emerge no aqui e agora (o qual não tem equação).
Inter de Conte e City de Guardiola foram equipas onde esta redundância com variabilidade esteve na minha opinião presente e nas doses certas. Dois jogares com padrão, que se quer mais ou menos dominante, mas com “aqui e agora”, o qual lhe traz variabilidade. Não foi raro observar inclusive, em ideias que têm por intenção jogar dominantemente assumindo a bola, o jogar destas equipas ajustarem-se também ao que o decorrer de um jogo ia pedindo, aceitando o circunstancial para com ele lucrar. Não foi raro inclusivamente, observar um City também sentir-se confortável a jogar baixo e contra-atacar. Padrões que a dado momento aparentam estar ordenados mas cujo desenrolar do jogo leva circunstancialmente a sua organização para uma desordem até que se volta ao ponto “zero” (que nunca é ponto zero) outra vez. A riqueza de tal abertura, “ser-se livre de agir sem agir livremente”, é um apelo à descoberta e exploração de possibilidades, encarando o jogo de acordo com a sua natureza inquebrantável e aceitando a sua imprevisibilidade. Parte-se de um padrão, que se quer dominante, mas o bom jogo tem tudo. E o tudo, vem também do próprio jogo.

Os estratagemas

Estrutural e formalmente separam-se treinos de competição. Mas enquanto desenvolvimento de uma Cultura, enquanto processo, até que ponto é possível fazer uma dissociação?Jogar (e treinar) ou não em função do adversário?;preparar a semana em função do jogo anterior e seguinte ou manter uma matriz semanal idêntica semana após semana são dilemas tentadores.Desenvolver uma Cultura Táctica é na minha opinião procurar promover uma adaptabilidade consistente, de não se por o carro á frente dos bois. Incluir a componente estratégica sim, mas sem perda de identidade, sem perda de espontaneidade, sem perda de dinâmica própria. Não interferindo negativamente na Integridade da Matriz. Porque só depois de dominar o tema, poderei em cena improvisar e ir a pormenores.

Variantes Táctico-estratégicas

Guardiola pode dar-se a esse luxo. Os anos que leva de City, permitem-lhe neste momento, pela consistência desenvolvida, incluir variantes táctico-estratégicas com mais facilidade. Uma análise às diferentes estruturas apresentadas pelo City esta época, inferimos a opção por determinadas interacções mais ou menos invariantes. Nomeadamente Ederson-Rúben-Stones e, no meio campo, a partir especialmente dos jogos acima citados, Rodri como pivot (ou um dos pivots dado que Guardiola jogou algumas vezes com dois pivots) e Gündogan como médio interior. Relações centrais mais ou menos invariantes, as quais, alicerçadas numa ideia redundante, deram estabilidade, consistência e invariância à Equipa. Deixo alguns vídeos-exemplo que documentam algumas acções que se alicerçam nesta Matriz, sob alguns níveis de influência, concretamente decorrentes da influência de Rodri:

01. Papel Rodri no antecipar recuperação + poder físico

02. Papel Rodri no reorganizar, participar na construção e libertar Gündogan

03. Papel Rodri, Leitura + poder físico no parar contra-ataques

Do ponto de vista das variantes, estas foram-se verificando (também por força da influência das diferentes estruturas usadas por Guardiola) na alternância dos jogadores nos corredores laterais (defesas laterais e extremos) e na frente:


01. Algumas das variantes estruturais usadas pelo City 4-3-3

02. Algumas das variantes estruturais usadas pelo City 4-2-3-1

(Outra das variantes estruturais foi o 3-4-3)

Final da Champions: “Do desenho à Realidade”

“Do desenho à realidade.(…) Estrategas que se admiram e que conhecem na perfeição a parte de xadrez do jogo. Seria apaixonante saber até que ponto estes monstros da razão pura levam a análise nas últimas semanas. Estudaram até ao mais ínfimo detalhe para não se deixarem surpreender e descobriram o pequeno resquício por onde podem, por sua vez, surpreender… Mas a partir das oito horas, as peças vão começar a mover-se, a improvisar, a desequilibrar, a cansar-se, a enganar-se, a distrair-se. Começarão a jogar.”

Valdano em A Bola de sábado 29 de maio de 2021 na antevisão da Champions, mais concretamente do duelo (Táctico-estratégico) Guardiola-Tuchel.

Falei anteriormente da base invariante que Guardiola usou durante a época. Ou melhor, durante quase toda a época…Na final da Champions não foi assim…
Guardiola não optou, neste jogo, por Rodri de início e jogou Gündogan como pivot. O facto é que o City não ganhou, o golo sofrido resulta de uma má abordagem no reagir e já se sabe o quão Guardiola foi criticado. Podendo-se especular sobre uma relação de causalidade entre tudo isto, sabemos também que se Guardiola tem ganho o jogo, evidenciar-se-ia, como é natural, a sua visão estratégica. A questão de base aqui levantada é analisar até que ponto essa alteração foi coerente com a grande força do seu processo.É a questão de olhar para um jogo como algo isolado ou para um continuum. Sendo tentador pensar-se de mais para um só jogo, o dito mais importante como é a final da Champions, pergunto: qual a importância dos outros, ou melhor do processo e da coerência, que levou a equipa até lá?
O facto foi que a matriz que mais vezes serviu de base aos desempenhos do City não esteve presente neste jogo. Guardiola não foi na minha opinião coerente com a sua grande força.

A variabilidade que vem do jogo, da emergência e da sua natureza inquebrantável

A Cultura Táctica, do jogo, como natureza inquebrantável, tem necessariamente tudo. O ter tudo é ter abertura na variabilidade mas assente numa Matriz da qual essa variabilidade emerge, como uma necessidade até. É uma dança, entre ordem e desordem, entre o redundante e o circunstancial (aquilo que a circunstância pede e que leva o sistema para novos níveis de ordem).Essa variabilidade, sendo essencialmente do jogo, pode também advir do estratégico se incluída e assente na Cultura, construída, dominada, que se manifesta já com uma certa consistência e quando acontece com espontaneidade.

A variabilidade presente nos jogos de Inter de Antonio Conte e City de Guardiola, resultado essencialmente de algo construído e aculturado coerentemente durante mais que uma época até, caracterizou-se por um JOGO TODO, onde o aqui e agora regeu em parte o rumo da circunstância em vez de o jogo ir forçadamente para onde se predeterminou.


Coerência foi o que guiou o Inter de Conte e o o City de Guardiola (até antes da final da Champions). Coerência foi o que guiou à consolidação de uma Cultura de jogo, que obteve na maximização da redundância com a maximização da variabilidade duas fontes de energia para crescer.

Implicações…

(a desenvolver na segunda parte do artigo)

Conceber uma Cultura de jogo como algo guiado consistentemente e como um fenómeno emergente leva-nos a algumas questões que considero pertinentes. Algumas delas têm implicações que vão inclusivamente para além das questões que dizem mais respeito ao Treinador.
Garantir ao mesmo tempo a maximização da redundância com a maximização da variabilidade é um dilema que exige aferição. Em que doses proporciono organização Táctico-estratégico e em que doses espontaneidade?, como se ligam uma com a outra?, de que forma a minha alternância semanal em termos de processo as vai enquadrar?, em que dias as apresento e porquê? Que interferência na dinâmica de gestão do grupo e até constituição do plantel e política desportiva ? são questões que daí podem (devem) advir. Algumas delas, abordarei na segunda parte do artigo.Na segunda parte vou-me socorrer também de algumas analogias relacionadas com outro tipo processos criativos, cuja similaridade, ao nível do seu processo, ajudará a um melhor entendimento do conceito de Cultura (Táctica) Emergente. E daí, espero também reforçar a importância e pertinência dessa conceptualização.


Um Abraço
Carlos Miguel

www.carlosmiguelcoach.pt

Sobre CarlosMiguel 1 artigo
"Iniciei-me como treinador no Sporting CP em 2011/12, logo após concluir o Mestrado em Treino de Alto Rendimento pela FADEUP. Seguiram-se Dragon Force-Porto, Academia Figo (China), Global Premier Soccer (EUA/Canadá) e, em 2016/17, a minha primeira experiência no futebol profissional no Zamalek SC (Egipto), como adjunto de Augusto Inácio. Em 2019/20, trabalhei na Académica Coimbra OAF, como treinador principal do escalão de sub 15. Na época transacta (2020/21), após ter estado como treinador adjunto no Episkopis FC (Grécia), acompanhei, Março, Manuel Machado no regresso deste último ao Nacional da Madeira, desempenhando as funções de Treinador Adjunto. ​ Na minha formação, e em paralelo com a minha actividade de jogador, licenciei-me primeiro em Ed. Física, seguindo-se um Master en Alto Rendimiento FC Barcelona e um Mestrado em Alto Rendimento na FADEUP. Nestes ciclos, conheci de perto as filosofias e realidades operacionais do FC Porto e FC Barcelona, sob mentoria ideológica de dois grandes nomes, Vítor Frade, e Paco Seirul.lo respectivamente., cujos paradigmas me influenciaram e inspiraram, nesse momento de início de carreira, na forma como me passei a interessar, a ver e a procurar perceber a arte do treino e do jogo em si. ​ Com o horizonte no futebol profissional, procurando uma carreira sólida e em constante evolução, procurei mais tarde ir também ao encontro de vários treinadores de top no futebol profissional como Vítor Oliveira, Manuel Cajuda, Luís Castro, Mauricio Pellegrino, Marco Rose - entre outros - os quais me possibilitaram a oportunidade de conhecer mais de perto a realidade do treino a top em contexto profissional. ​ O que motiva é vencer e evoluir. Tornar melhores as equipas e os jogadores com quem trabalho. Apontar um caminho para ganhar e crescer. Esta é a minha missão no Futebol." www.carlosmiguelcoach.pt | UEFA A https://www.youtube.com/channel/UCXoYiXyYVbz-MvICj_tm2XQ

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