As Novas Cartas Portuguesas e o futebol de formação – amigos improváveis

A grande motivação do post é a aprendizagem do futebol. Não obstante, parte de um elemento improvável: a entrevista concedida pelas Três Marias (Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa) a Fialho Gouveia a 9 de Maio de 1974 – pós 25 de Abril, portanto. 


Resumidamente, e para quem não conhece a história, as Três Marias escreveram conjuntamente um livro em 1972 sobre a condição da mulher, particularmente da mulher portuguesa, especialmente oprimida durante a ditadura. O livro foi considerado imoral, pornográfico, entre outros adjectivos, e as autoras chegaram a ir a julgamento. O caso ficou mundialmente conhecido pois os movimentos, e protagonistas, feministas internacionais (de Paris a Nova York) expressaram solidariedade em manifestações contribuindo para a mediatização da situação. 


Na já referida entrevista (que pode ser vista na íntegra aqui), Fialho Gouveia comenta e pergunta “Parece-me que o livro não tem a linguagem das coisas simples, que chegam às pessoas, parece-me que o livro na maioria das suas páginas utiliza uma linguagem densa, rebuscada, vamos lá dizer em termos correntes , é um bocado chato. Que é que vocês têm a dizer a isto?”.  Já anteriormente, Maria Teresa Horta se tinha referido ao assunto da dificuldade de leitura “Não fomos tão claras como devíamos ter sido para chegar a todas as mulheres, de qualquer forma é um bocado complicado isso, complicado para nós. Somos realmente mulheres intelectuais com muita dificuldade de comunicação com as outras pessoas e até hoje era muito difícil falar com as pessoas em Portugal

Fazendo o paralelo possível com o futebol (não esquecendo o contexto histórico do livro que tinha de passar pelo crivo da censura, o que naturalmente dificultou a tarefa das autoras em serem tão claras como poderiam ser, além do baixo grau de escolaridade em Portugal à época), observamos dois clássicos problemas para os treinadores, nomeadamente na formação: se por um lado quer passar os melhores conteúdos aos seus jogadores, por outro as suas intenções podem sair furadas se não for claro ou “simplificar”. Não obstante, simplificando em demasia pode  colocar em causa o potencial de desenvolvimento dos jogadores. Corre o treinador o risco de realizando bons treinos em abstracto não ser percebido? 


É frequente ouvirmos treinadores nos escalões de formação “com estes miúdos não dá para fazer mais”, “não podemos complicar”, ou falar excessivamente na atitude e vontade para compensar “as falhas técnicas que agora não vão a tempo de serem corrigidas”. Sendo o agora escalões como sub17 ou sub19.
Não colocando demasiada fé na influência da equipa técnica no processo estamos mesmo condenados a “adaptar ao que temos”? Não devemos antes abrir horizontes aos jogadores e progressivamente mostrar coisas novas, introduzir aspectos aparentemente complexos, diversificando a capacidade de decisão, ou capacidade técnica de quem treinamos?


Vejamos a resposta de Maria Velho da Costa à pergunta-comentário de Fialho Gouveia “Não interessa tornar as coisas muito simples para todas as pessoas, interessa tornar as pessoas capazes de chegar a tudo aquilo que quiserem, ou mais ou menos complexo. Não interessa só levar a cultura ao povo mas interessa levar o povo à cultura


A autora inverte o ónus da pergunta: os protagonistas é que têm de ser capazes de dominar coisas simples e complexas. Acredito que no futebol formativo esta ideia deve prevalecer: cabe ao treinador fazer evoluir os jogadores, tornando-os capazes de perceber melhor o jogo, não só naquilo que eles já faziam antes,  mas também mostrar novos conceitos que os levem a entender a complexidade do futebol. Ou seja, não são as Três Marias que têm necessariamente de mudar, mas antes os intermediários educativos que devem pugnar por elevar a fasquia 


Não se está a defender que todas as equipas da formação devem jogar um jogo mais “rendilhado”, baseado no passe Poderá ser assim, ou não. Mas é essencial que os jovens entendam o futebol como algo dinâmico em que a sua acção e posicionamento dependem do colega.


Só através do estimulo constante e continuado no tempo é possível “fazer as pessoas capazes de chegar a tudo aquilo que quiserem”, ou pelo menos ao seu máximo potencial. Usando um exemplo prático: se na equipa um central só bate longo mesmo tendo boas opções entre linhas, o treinador tem duas hipóteses: ou idealiza um modelo de jogo tendo em conta esta limitação ou aproveita o treino para dar conferir variabilidade de soluções individuais, mesmo que ele não entenda à primeira e naturalmente cometa erros pelos caminho?. Como já se percebeu, o autor deste post defende a 2ª hipótese. 


Um treinador durante um ano pode fazer assim tanta diferença na formação e mentalidade dos seus pupilos? Talvez, mas um processo completo  requer anos. Peguemos nas palavras de Maria Isabel Barreno à mesma pergunta: “Na outra sociedade [pré 25 de Abril] o  que acontecia é que os escritores ficavam a escrever coisas que as pessoas não entendiam mas isso era um condicionalismo que individualmente não podia ser vencido“. A expressão chave, neste caso, é “condicionalismo que individualmlente não podia ser vencido”. Portanto, quanto melhor for o grupo de treinadores no clube, maiores serão os patamares alcançados. Pugnar sozinho por uma cultura de treino em que os conteúdos estão intimamente ligados ao jogo, por exemplo, não é fácil em contextos sem esse hábito.
Por último, o legado. Além, ou para lá, dos eventuais troféus o que pode ficar numa época são os ensinamentos que preparam e ajudarão o jogador em etapas futuras, mesmo que, num primeiro ano de contexto de aprendizagem os erros tenham acontecido mais do que deviam. Ou simplesmente um abrir portas para a crescente complexidade do jogo que decorre com as subidas de escalão. Tal como Maria Teresa Horta referiu após reconhecer que não tinham sido tão claras “Penso que de qualquer forma se conseguiu alertar, fazer qualquer coisa, alertar para o problema da Mulher, muito pouco falado.” 


Na verdade um livro escrito por 3 intelectuais, aparentemente inacessível a boa parte da população tornou-se icónico porque as autoras não se resignaram a baixar a fasquia. Quebraram fronteiras. O que é complexo hoje, pode ser simples amanhã. No futebol como na vida 

Sobre Lahm 33 artigos
De sua graça Diogo Laranjeira é treinador desde 2010 tendo passado por quase todos os escalões e níveis competitivos. Paralelamente realiza análise de jogo tentado observar tendências e novas ideias que surgem no futebol. Escreve para o Lateral Esquerdo desde 2019. Para contacto segundabola2012@gmail.com

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