A identidade de uma Seleção – Reflexões metodológicas sobre um jogar (in)característico

O nosso país pode orgulhar-se de ser um verdadeiro viveiro de talentos para esta modalidade. Facilmente exportamos jogadores para todo o mundo (e para equipas consideradas top), temos mais Bolas de Ouro que a maioria dos países onde o jogo se pratica ao mais alto nível, . Trabalha-se bem (dadas as condições, mas isto “são outros quinhentos“) no futebol de formação e o produto final disto tudo é a nossa Seleção Nacional, onde se reúnem os melhores dos melhores que somos capazes de produzir. No entanto, esta equipa recheada de qualidade individual (ter Ronaldo, Félix, Bernardo, Bruno Fernandes na mesma equipa é de loucos) continua a ter imensas dificuldades em afirmar-se de forma estável no panorama das melhores seleções (campeã europeia em 2016, prestação cinzenta na WC2018, vitória na Nations League em 2019, Euro 2020 sem grande rasgo também), ver a nossa Seleção Nacional jogar neste momento não é divertido, não nos desperta emoções positivas pela estética do jogar e os recentes resultados na qualificação para a WC2022 são apenas o culminar disto tudo.

“Foi um péssimo jogo de Portugal. Conseguimos marcar o golo cedo, mas depois deixámos de jogar. Faltam-me as palavras. Temos que fazer mais do que fizemos hoje. Em casa, com 65 mil pessoas, tínhamos que fazer melhor. Quero pedir desculpa porque vieram ver um jogo que não deviam ter visto. Isso em casa e com a qualidade dos nossos jogadores é inadmissível.”

Bernardo Silva

Este momento merece alguma reflexão e mais do que começar a apontar culpados, se devia ser este convocado em vez daquele, se devíamos jogar neste ou naquele sistema, se é hora de despedir o selecionador ou não, temos de ir mais em profundidade neste problema. Afinal, qual (ou deve ser) a identidade de uma Seleção Nacional? Ou mais especificamente, da nossa Seleção Nacional? Só tendo uma resposta para estas questões poderemos voltar atrás e tomar as decisões do inicio deste parágrafo sendo que, sinceramente, tenho algumas dificuldades em responder à segunda questão particularmente fazendo uma análise de forma mais transversal: eu olho para a AA e vejo um jogar totalmente diferente dos Sub-21 não só em estrutura mas também em ideia de jogo. Depois vamos mais fundo e as seleções mais novas (Sub-19 para baixo) assemelham-se em ideia talvez aos Sub-21 mas com uma estrutura posicional diferente, relação inversa com a AA em que a estrutura tem pontos de ligação mas a ideia é outra mais uma vez. Façamos o exercício de, ignorando os escalões, olhar para estes 4 lances de fase de construção e refletir se poderia ser a mesma equipa a estar a produzi-los:

Se o objetivo é ter um fio de jogo transversal acaba por ser estranho termos equipas a querer promover um jogo essencialmente de controlo pela posse, outras a querer jogar na expectativa e de forma mais passiva no erro do adversário e outras a procurar um jogo mais partido em transições. Se a ideia é adaptar a estrutura aos melhores jogadores em cada momento e que são consequentemente convocados, então o caminho também não é este já que os modelos têm-se mantido estanques nos últimos anos e as gerações vão passando (ver abaixo as matrizes de passes da AA e dos Sub21, dados GoalPoint). E com isto não quer dizer que qualquer uma delas tenha o modelo ideal (na minha opinião não, de todo), a divergência transversal na modelação é que é o busílis da questão.

Que um dia possamos dizer que a Seleção Nacional possui um jogar (característico nosso) tal que o verdadeiro fator preditor do seu sucesso seja a qualidade individual de cada geração (coisa que de que nem conseguimos tirar partido neste momento). Um exemplo disto é que eu vi a seleção espanhola no Euro Sub-21 e no Euro 2020 e senti que aqueles jogadores viam o jogo da mesma forma (e da forma correta), coisa que deveria tranquilizar qualquer dirigente federativo pois agora basta que apareça uma geração de jogadores superlativa (o que não é assim tão complicado…) para se regressar aos níveis de performance atingidos no período 2008-2012.

Até lá continuaremos a alimentar discussões estéreis sobre jogar com 3, 4 ou 5 defesas, convocar o José em vez do Joaquim e para quando é que vamos ter Jorge Jesus a cantar o hino nacional no banco de suplentes.

Sobre Juan Román Riquelme 75 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*