A preparação do Liverpool pelos olhos de Pepijn Lijnders – Criar algo mais do que um jogar

O Liverpool, desde a chegada de Klopp, tem-se mantido com uma regularidade competitiva assinalável: invariavelmente nas decisões, reconquistando títulos há muito desejados e, acima de tudo, demonstrando uma identidade no seu jogo que, apesar de algumas mudanças pontuais no plantel, se tem mantido perene e podíamos colocar 11 equipamentos de uma cor aleatória e de marca branca nos jogadores dos reds que o seu jogar seria perfeitamente identificável. O modelo assenta em princípios tão enraizados nos atletas que desperta a curiosidade sobre como se desenrola o processo longe dos holofotes. Algumas pistas estão na própria linguagem que a equipa técnica utiliza, basta assistir a algumas das conferências de imprensa do treinador adjunto, Pepijn Lijnders – com uma passagem relevante pelos escalões de formação do FC Porto – para se ter uma noção que o jogo ali se vive e pensa de maneira diferenciada:

O próprio Pepijn Lijnders, durante a pré-temporada deste ano, escreveu para o site do clube um diário em que ia relatando sumariamente o dia-a-dia da comitiva do Liverpool. Um relato muito interessante e que deixa passar um pouco do que são as ideias da equipa técnica para a operacionalização e metodologia de implementação de algo mais do que um jogar. Sendo assim, ficam aqui alguns pontos desse mesmo diário:

(Os transcritos seguintes são uma tradução direta dos relatos de Pepjin Linjders na primeira pessoa, disponíveis no site do Liverpool)

Dia 1 – A nossa pré-temporada divide-se em 3 fases. A primeira é sobre regressar aos básicos com a ideia de que queremos controlar os jogos sendo dominantes em cada momento. De seguida trabalhar a nossa consistência e, na terceira fase, criar uma mentalidade de “nós contra o mundo”. Sem distrações, foco no processo e no coletivo. Isto fará com que, onde quer que joguemos ou contra quem joguemos, consigamos impor o nosso jogo. Durante estas três fases vamos aumentar o volume da intensidade. A nossa intensidade. Esta energia e paixão que nos faz estar prontos para ser competitivos no primeiro jogo da época.

Dia 3 – Nós usamos a pré-temporada para criar esta mentalidade de que cada jogo é uma final. Cada exercício baseia-se na premissa de que quanto melhor jogares, mais jogas; quanto melhor contrapressionares, mais jogas; quanto melhor defenderes, mais contra-ataques vais ter. São estes momentos que fazem a diferença.

Dia 5 – Nós queremos criar uma mentalidade de “nós queremos a bola” – então quando a perdemos, queremos reagir o mais rápido que conseguirmos para a ter de volta. Quando temos a bola podemos atacar e isso é a melhor defesa que existe. E os rondos [meinhos] estimulam isso mesmo: no momento em que perdes a bola e tens de fazer um sprint de 20 metros e defender naquele quadrado – isto atinge níveis de concentração que não consegues atingir nos rondos normais. O rondo normal já é bom porque se não estás a jogar bem vais para o meio do círculo e no jogo é o mesmo – se não estás a atacar bem, tens de defender mais. Aqui ainda é melhor, não só vais para o meio como tens do fazer a 20 metros de distância.

Nós vivemos pelo lema: colocar o nosso jogo defensivo sob stress e encorajar o nosso jogo ofensivo. Nós jogamos por esta ordem, primeiro fazer o que é necessário e depois o que dá prazer. É assim que treinamos e preparamos a equipa. Então ontem focámos mais no trabalho com a linha defensiva e fizemos um exercício de 8 contra a linha defensiva e eles tinham de defender tão alto quanto possível. A base do jogo de pressão do nosso Liverpool está muito no posicionamento da nossa linha defensiva. É por isso que vêm o nosso trio da frente a trabalhar como trabalham, porque é impossível trabalhar assim sem segurança lá atrás. A “equipa curta”, como dizia Arrigo Sacchi, porque queremos decidir sobre quão pequeno é o campo. Passámos imenso tempo de exercício a corrigir as movimentações da nossa linha defensiva, corrigir aqueles que não se moviam de forma coordenada, sempre a dar suporte ao nosso trio da frente para pressionar.

Dia 6 – Demos uma sessão de treino a que chamamos de “11 v 11 impulse” em três quartos do campo. Tinha tudo o que um 11v11 tem de ter: tática, coletivo e uma mentalidade vencedora. Acredito que depois da técnica, isto é o aspeto mais importante do nosso jogo. Depois só temos de confiar na nossa atitude nos grandes jogos. As velhas regras do futebol são as melhores, na minha opinião. Johan Cruijff dizia que a qualidade do primeiro toque dita o ritmo do jogo. Isto é tão verdade. Quando fazemos rondos táticos, damos aos nossos médios a oportunidade de trabalharem o seu jogo associativo estimulando um primeiro toque perfeito. Toda a gente joga a um toque mas apenas os nossos médios a dois toques.

Dia 8 – Esta manhã fizemos um rondo de contrapressão e um rondo ofensivo. Os nomes são autoexplicativos. No rondo ofensivo eles tinham de gerar mobilidade (toca e vai), situações de 1v1 e situações de 3º homem para ganhar pontos. Depois jogámos o nosso jogo de identidade: três equipas de oito elementos a tentar ganhar o direito de atacar mais – e fizemos isto no campo todo! Quando uma equipa passa a linha do meio-campo tinha um tempo curto para finalizar o contra-ataque (jogo holandês).

Dia 11 – Fizemos um minitorneio com dois jogos de 30 minutos. Planeámos isto de forma a criar uma sessão de treino de 11v11 exatamente três dias antes do jogo com o Mainz, o que nos permite treinar de forma “normal” na quarta-feira, com pequenos ajustes e evitando ações explosivas. Agora vamos focar as próximas três sessões na nossa estrutura, nas nossas ideias e em criar os hábitos corretos nos diferentes momentos do jogo, à procura de fluidez. A nossa metodologia de treino baseia-se num plano semanal lógico e estável que nos permite desenvolver e evoluir a equipa e cada indivíduo, sessão a sessão e jogo a jogo.

Dia 13 – Terminamos a sessão com contra-ataques, os passes são feitos bem profundos para manter uma boa velocidade. Nestes exercícios de contra-ataque, quando os nossos jogadores não marcam têm de sprintar de volta rapidamente à linha de meio-campo. Relembrar um dos princípios do nosso treino: quanto melhor jogares, mais vais jogar; quanto melhor finalizares, menos tens de correr; quanto pior jogares, mais vais ter de correr. Pressão que se gera naturalmente. Eu gosto mais de colocar a equipa em boa condição física desta maneira.

Dia 15 – Mudámos de cidade e o nosso primeiro treino foi designado para estimular a finalização nos nossos contra-ataques, encontrar um bom último passe vs. parar um contra-ataque. Marcar era sempre o objetivo, mas como sempre, o último passe torna as coisas mais fáceis, então sobrecarregamos o exercício com situações em que os nossos rapazes tinham de utilizar este último passe, algo que queríamos melhorar muito. Wim Jansen, um antigo internacional holandês, uma vez disse-me que o primeiro toque e o último passe são os dois atributos técnicos mais importantes no jogo. E como treinador nunca mais me esqueci disso. Treinar é simplificar as coisas, tornar as coisas simples para os jogadores, então damos feedback sobre o timing do passe, sobre adaptar o movimento ao jogador que tem a bola – futebol pensado. John Wooden diz que há 8 regras do treino: uma é a explicação, a segunda é a demonstração, a terceira é a correção e a quarta, quinta, sexta, sétima e oitava são repetir, repetir, repetir, repetir, repetir… O objetivo final do nosso treino é criar hábitos de contrapressão tais que eles possam aplicar intuitivamente sobre a maior das pressões. O exercício ficou 14-13, equilibrado mas ainda significa 30 flexões para a equipa que perdeu.

Dia 17 – Na terça tivemos uma sessão de “ponte”, que utilizámos para recuperar a mente e ativar o corpo com um torneio de 4v4, mas primeiro fizemos uns rondos em que os rapazes tinham de reagir ao meu apito: um assobio, moviam-se para a esquerda; dois assobios, moviam-se para a direita. Os últimos dois a chegar a um novo quadrado tinham de recomeçar no meio. Depois, jogámos os jogos de 4v4: espaços curtos e intervalos de tempo curtos, com dois grupos de 12 a fazer 3 equipas de 4. Os amarelos estavam 3-1 atrás após oito jogos mas no nono jogo, o final, deram a volta para 4-3. Estas reviravoltas só acontecem quando são as “finais”. Os que estão de fora, os oito jogadores são envolvidos, estavam a gritar e a ajudar os que estavam a jogar – é este o ambiente que procuramos, top! Depois disto estamos prontos para as sessões de quarta-feira – é o dia tático onde nos focamos na organização, nas distancias corretas e o nosso analista cria 3/4 vídeos curtos com os nossos princípios ofensivos.”

Sobre Juan Román Riquelme 89 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo. Contacto: riquelme.lateralesquerdo@gmail.com

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