“Il Regista”, agora feito treinador – As ideias e o modelo de Paulo Sousa

“É uma pessoa muito séria e um apaixonado pelo seu trabalho. Como jogador, tinha uma inteligência incrível, tanto do ponto de vista táctico como técnico.

Marcello Lippi

Em tempos um médio de recorte fino e já um pensador do jogo, Paulo Sousa virou treinador e tem agitado o mercado nos últimos dias na iminência de assumir o comando técnico do Flamengo e entrando mesmo em rota de colisão com a Federação Polaca tendo em vista a concretizar essa mudança de clube. Nesse sentido, fomos aprofundar as ideias do treinador português e as características de algumas equipas que o mesmo comandou num passado recente a fim de desvendarmos um pouco do seu modelo e o que poderemos vir a observar no Brasileirão em 2022.

A forma de pensar

  • Uma emocionalidade que se quer no jogo – “Sendo protagonistas em todos os momentos do jogo. Mas, fundamentalmente, com bola. Gosto de ver as minhas equipas a expressarem todo o seu conteúdo romântico ou poético, individual e coletivo, de forma a que tenham domínio sobre o adversário e esse domínio tem muito a ver, no meu ponto de vista, com espaço e com tempo. Requer, sem dúvida, uma inteligência tática importante. Procuramos ter uma identidade comum em todas as equipas, onde essa base permita ao indivíduo a toma mais rápida de decisões perante esse tempo e espaço, para que essa expressão poética possa ser a base do individual. A base para oferecer ao público em geral e, nomeadamente, aos nossos adeptos, algo que lhes permita passar uma semana com ansiedade de voltarem ao estádio para os poderem ver e obterem as mesmas emoções.”
  • A ideia de jogar que é criar oportunidades – “É estar o maior tempo possível no meio campo adversário, mesmo com equipas, hoje em dia, bem capacitadas fisicamente, taticamente também bem definidas, com espaços bem curtos, e que através da identidade comum e do dinamismo coletivo a expressão individual possa fazer diferença no último terço, porque o expoente máximo do futebol é o golo. Então, é também a capacidade de produzires, durante o jogo, inúmeras ocasiões de golo para que entusiasmes quem joga e, sobretudo, quem vem ao estádio. Eles são sempre a alma de tudo o que é o futebol e ter a maioria dos estádios sempre cheios é, para mim, uma realização única. Pretendo, através do futebol e da ideia de futebol que procuro para as minhas equipas, que as pessoas estejam em maior número nos estádios.”
  • O espaço ou a técnica, ou os dois – “O espaço, porque a técnica tem a ver com situações mecânicas que vais adquirindo, mas penso que temos vindo a desinvestir em anos que são necessários para potenciar ao máximo o futebolista, para que tenha controlo sobre a técnica – fundamentalmente, a técnica do drible. Acho que tem vindo a desaparecer cada vez mais, em todos os setores. Cada vez mais ouço e vejo pedidos para jogar a um ou dois toques para dar velocidade ao jogo, que também se traduz na capacidade de passe rápido, de verticalizar jogo e mudanças de corredor, daí a técnica e o controlo do passe. Mas, também, a capacidade de mudança de velocidade através do drible, atacando os espaços. Driblar um ou mais adversários para se criar espaço.”
  • Gerir homens é gerir o nosso jogar – “Uma equipa de futebol é uma microssociedade onde tem que existir um mínimo de regras, porque há diferentes personalidades e culturas. Tem que haver uma linha que permita a coexistência de toda a gente. Com o tempo, os meus jogadores percebem que todas as minha decisões são para a equipa, para podermos ganhar e para podermos ver um futebol dentro do que trabalhamos. Mas, sobretudo, que existe coerência na minhas decisões dentro do nosso objetivo, que é ganhar e ver o melhor futebol, com os melhores jogadores, tentando dar oportunidade a todos de expressarem as suas potencialidades.”

(excertos retirados de uma entrevista de Paulo Sousa à Tribuna Expresso)

O Bordéus

Momento ofensivo – duas alternativas: uma estrutura em 1-4-3-3 com saída em 2+2 e os laterais baixos, numa construção praticamente a 6 elementos + GR, sendo que na frente os extremos posicionavam-se à largura e o ponta alternava entre um posicionamento mais fixo sobre a linha defensiva e alguns movimentos complementares de apoio/rotura com o médio ofensivo a ir buscar nas costas; mesmo dentro deste registo poderíamos ter alguma variabilidade no posicionamento do meio-campo em 1+2 ou 2+1 em mobilidade e ainda os extremos entrarem ambos em jogo interior nas costas dos médios adversários dando o corredor aos laterais. Em alternativa, uma estrutura em 1-3-4-3 com uma distribuição “8 por dentro, 2 por fora”, com uma construção em 3+2 e os alas a meia altura conferindo a largura ao jogo e dois médios ofensivos nas costas do ponta no espaço entrelinhas.

Momento defensivo – na maior parte das vezes assente numa estrutura defensiva em 1-4-4-2 com comportamentos de zona pressionante, com os dois pontas a pressionarem na diagonal, um dos médios centro com a possibilidade de avançar no terreno caso haja superioridade marcada do adversário na saída à frente dos centrais, a pressão ao corredor lateral na saída a ser feita pelos extremos fazendo com que a linha defensiva de 4 se possa manter íntegra (pressão montada a 6 elementos).

A Polónia

Momento ofensivo – a estrutura preferencial seria a de um 1-3-5-2 com saída em construção com os centrais largos e posicionados em 1+2 no sentido de ocupar melhor os espaços na segunda linha do jogo, os dois médios de duplo-pivot à frente, alas a meia altura a alargar o jogo e com um médio ofensivo nas costas dos médios contrários a dar suporte aos pontas. Possibilidade do meio-campo, em mobilidade, inverter de um 2+1 para 1+2 e a chegada a zona de criação era feita com os dois alas projetados em simultâneo, avanço do “10” para mais perto dos pontas para ocupar zonas de finalização e cobertura ofensiva dos dois médios. Princípios simples, aproveitando a largura dada pelos alas para atrair a pressão a um corredor para variar ao lado contrário para o ala solto ou em situação de 1v1 para explorar um jogo de cruzamentos dando assim volume ao melhor ponta do mundo.

Momento defensivo – organização defensiva em 1-5-3-2 com marcação zonal clássica, com possibilidade de serem os alas a saltar à pressão no corredor mas com o trio de médios a bascularem horizontalmente em linha auxiliando também no controlo da largura, permitindo muitas vezes manter a integridade da linha de 5 mais atrás – mais difícil de desmontar tanto em profundidade como em largura.


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Sobre Juan Román Riquelme 89 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo. Contacto: riquelme.lateralesquerdo@gmail.com

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