As características e os comportamentos 

«Erling precisa de todos os seus companheiros para fazer golos.»

Pep Guardiola 

Olhar para um futebolista e traçar uma avaliação individual é um processo que trará sempre consigo imprecisões consideráveis. A influência coletiva na tomada de decisão de um jogador é determinante. O que o rodeia é, quase sempre, fator decisório na performance individual. Quando falo no que os rodeia, falo obviamente dos jogadores que tem à sua volta mas sobretudo das dinâmicas coletivas que influenciam e dirigem a tomada de decisão. 

São essas dinâmicas coletivas que permitem dar vida às melhores competências dos jogadores. A coerência dos comportamentos, a harmonia entre elementos, os posicionamentos, entre muitos outros fatores, acabam por ser decisivos para que, bem enquadrados, se conectem os valores que se traduzirão em boas performances individuais. Dificilmente haverá bons jogadores em contextos vazios. Não há características que sobressaiam sem que algo funcione em redor do que se pretendemos potenciar. Um jogador muito capaz a gerir ritmos de jogo nunca o conseguirá fazer se a restante equipa não se comportar de forma condizente. Um jogador fabuloso a manter a posse de bola nunca o fará se os comportamentos coletivos não o permitirem. Seria fácil se as características de cada jogador se exprimissem garantidamente só porque o jogador está em campo. 

A tomada de decisão no futebol está dependente de um processo coletivo forte. E isto nem sempre estará totalmente dependente das ideias desenhadas pelo treinador. Por vezes, são pequenas associações que permitem combinações de excelência. E aí é importante juntar os que melhor se relacionam. Mas até essas relações ficarão dependentes de comportamentos úteis e coordenados. 

Facilmente percebemos que os dois melhores avançados do mundo poderão não ser a melhor dupla de avançados do mundo. E é por isso que isto não só sobre escolher os melhores, é sobre escolher os melhores a executar a ideia proposta. É sobre criar e promover relações!

Talvez por isso seja tão difícil recrutar. É preciso idealizar enquadramentos. É preciso imaginar como determinado jogador se comportará na função que lhe é destinada. Não é fácil. Mais fácil será perceber que não há jogadores de posse. Há equipas de posse. 

Recentemente, ao ver o PSG voltou a surgir-me o pensamento. Ter Verrati e Vitinha ajuda a ter bola? Sem dúvida, muito! Mas o que realmente faz a diferença são os comportamentos associados a esses talentos. É a forma como os completamos enquanto jogadores. Ninguém tem bola sem a recuperar e ninguém mantém a bola se não existirem soluções de passe, ainda que existam génios que criam soluções que nem sequer existiam. 

Os jogadores não são só características e é também por isso que as ideias de jogo nunca são iguais. O mesmo acontece com os jogadores. Muda o contexto, mudam os colegas, mudam as dinâmicas (…) e os jogadores como individualidade, envolvidos num processo coletivo, passam a ser outros, obrigatoriamente. 

Percebendo isto, o valor atribuído à formação da ideia passa a ser chave. O grande problema poderá ser a forma como se olha para as características e de que forma é que elas servem a formação da ideia.

Na verdade, parece-me que são mais as vezes em que se olha para as características de um jogador e se aprisiona o seu potencial, do que aquelas em que olhamos para ele e percebemos que para completar esse perfil são fundamentais os comportamentos que lhe vamos adicionar. As características não guiam o treinador numa direção única nem estreita. As características servem como as cores com que pintamos o nosso jogar. Mas as cores não perdem vida ao misturarem-se e por isso não nos devem limitar.  São elas que abrem portas à criatividade do treinador. Basta mesclar com as dinâmicas adequadas ou até com outras cores para chegarmos ao tom que idealizamos. Por isso é que me parece redutor justificar a ideia de jogo com um simples “adaptar às características dos jogadores”. Tem de haver mais do que isso porque na verdade, para as mesmas características, para o mesmo jogador, há e haverá sempre infinitas formas de jogar.

E é na procura dessa expressão coletiva que anda o treinador, consciente que é a fusão entre os comportamentos e as características que ditará o rendimento individual e coletivo.

Sobre Bruno Fidalgo 82 artigos
Licenciado em Ciências do Desporto. Criador e autor do blog Código Futebolístico. À função de treinador tem aliado alguns trabalhos como observador.

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