Pensar como um dez. O passe que antecede a assistência, e o passe que antecede o passe que antecede a assistência. Tão importantes quanto a assistência. Mesmo que com menor notoriedade.

“Remato pouco porque procuro sempre a melhor opção. Penso sempre o jogo como um dez” Gaitán.
Curiosa a afirmação sobre as suas decisões com bola. Pensa sempre como um dez. É esta a diferença que temos apregoado desde o início do blog há seis anos atrás, do futebol idealizado nas décadas passadas para o jogo moderno. 
O pensar como um dez é uma óptima afirmação num sentido figurado. Na actualidade, todos os que pisam o relvado devem ter tal preocupação. Pensar como um dez. A cada momento em posse ao atleta cabe perceber qual o melhor caminho. Importante interpretar o “pensar como um dez” com o anterior “procuro sempre a melhor opção” e não como o pensamento de Carlos Martins e outros que tais, sobre como deve pensar um dez. Isto é, só ver e procurar passes de ruptura e notoriedade a cada posse.
Os melhores laterais, os melhores centrais, os melhores trincos, os melhores avançados, os melhores extremos. Os melhores jogadores. Todos pensam como um dez. Se há quem esteja em melhor posição (mais dentro? menos oposição? mais espaço? mais tempo?) para receber a bola, esta tem de entrar lá. 
Pensar como um dez, não é de forma alguma restringir a individualidade e ou criatividade. De facto, quem nos segue há bastante tempo percebe que o que está em causa não é o discordar com o drible ou com a iniciativa individual. Pelo contrário, tais iniciativas devem até ser estimuladas, desde que integradas num contexto colectivo. Porque se elogia tanto a progressão de Enzo? O que está em causa é integrar as acções onde elas devem ser inseridas. Identificar o tempo e espaço óptimo para as acções. Sejam elas o passe, a condução ou o drible.
Pensar como um dez deve ser apanágio dos onze jogadores de cada equipa. Procurar sempre a melhor opção significa garantir melhores possibilidades de sucesso. Por vezes tal afasta-te da notoriedade. Porém, aproxima a equipa do golo. Um exemplo muito grande no último jogo do SL Benfica é até o passe que antecede a assistência de Gaitán. Sílvio, provavelmente involuntário, porque pareceu uma má recepção, mostrou o melhor caminho. Com milhares de outras equipas e outros jogadores, sabe o que teria acontecido? O lateral recebia, esperava pela desmarcação do extremo para a linha. O extremo desmarcava pelas costas, recebia e cruzava para um qualquer corte de um defesa. Naturalmente que tal caminho teria sempre algumas probabilidades de terminar em golo. Porém, imagine vinte vezes o lance a seguir por ai e outras vinte a seguir pelo caminho que os jogadores encarnados lhe deram. Qual aproxima muito mais a equipa do golo? Decidir bem, é uma questão de aumentar as probabilidades de fazer feliz a equipa.
Pensar como um dez é valorizar toda e qualquer acção que aproxime a equipa do golo e não procurar a notoriedade a cada toque. Não procurar ficar na ficha do jogo a qualquer preço. Mais do que qualquer outra característica a diferença dos grandes para os medíocres é a forma como privilegiam o sucesso colectivo independentemente da notoriedade pessoal.
Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3331 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

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