Intensidade no futebol

Partilho com vocês um dos melhores artigos alguma vez escritos sobre futebol em Portugal.

O autor é o Ricardo Ferreira, uma das minhas maiores referências no que concerne ao pensar e operacionalizar tudo o que diz respeito a este jogo que nos apaixona, e partilhou o artigo aqui. O Ricardo, que é também o autor do melhor site sobre futebol (mesmo futebol!) em Portugal. O saber sobre o saber treinar.

“O valor das coisas não está no tempo em que duram, mas na intensidade com que acontecem. É por isso que existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Fernando Pessoa citado por (Romano, 2007)

A moda da intensidade… física

 

A intensidade tornou-se moda no Futebol no século XXI. Podemos procurar respostas sociais, pela forma como a civilização se alicerçou na globalização e no modo como esta estimula a rapidez e instantaneidade na vida das pessoas. Segundo (Siqueira, 2009) “as mudanças agora dão-se a um ritmo de velocidade e intensidade incomparáveis”. Assim, o mesmo autor defende que “torna-se central na discussão sobre o actual processo de globalização, a observação de Castells (1999, p.111) de que “uma economia global é uma nova realidade histórica, diferente de uma economia mundial… é uma economia com capacidade de funcionar como uma unidade em tempo real, em escala planetária…”. A categoria “tempo real” marca a divisão entre o entendimento do conceito de internacionalização e o conceito de globalização, pois traz consigo aquele ritmo de velocidade e intensidade incomparáveis imprimidos nas mudanças que se dão em todas as esferas da vida social e humana na contemporaneidade. Neste espaço-tempo não se permite aos indivíduos a sensação de viverem antiguidades, mas, ao contrário, a sensação de futuro iminente, incerto se faz presente a todo instante, pois os sistemas actuais são marcados por “bifurcações”, movimentam-se longe do equilíbrio e manifestam o desenvolvimento evolutivo da complexidade”.

Esta “intensidade” imprimida na vida das pessoas, redundou muitas vezes numa velocidade sem sentido, expressa na urgência de vivermos cada momento condicionada pelo ímpeto de vivermos o seguinte. A jornalista (Cabral, 2016) recorrendo ao treinador espanhol Juanma Lillo, concorda com esta perspectiva ao explicar que o problema não é só do futebol, diz, mas de uma sociedade em constante mudança, fruto de uma evolução tecnológica que promoveu o imediatismo como norma. “A essência pela qual as coisas se faziam perdeu-se. No meu tempo tinha de passar por muitíssimo para ter dinheiro para comprar uma caderneta de futebol. Hoje, compram-se os cromos todos da caderneta de uma vez só, para despachar. Queremos tudo para ontem, sem percorrer o trajecto. A sociedade actual criou outro tipo de homem, e creio que somos actualmente mais filhos da sociedade do que dos nossos pais”, explicou o ex-adjunto da selecção chilena. “Falta rua no jogar e bairro no viver”, concluiu”.

Consequentemente, subtraímos decisão, reflexão e portanto, inteligência às nossas acções, à nossa existência. Assim, (Siqueira, 2009) refere que “temos que falar agora de um tempo chamado por Lévy de “pontual”, no qual ocorre uma espécie de implosão cronológica, e a aventura humana entra num ritmo totalmente novo em que “…o devir parece engendrar a si mesmo, instantaneamente, brotando das simulações, dos programas e do fluxo inesgotável dos dados digitais…, vai muito depressa, ainda que não queira saber de onde vem e para onde vai” (Lévy, 1993, p. 115)”. Consequência mais grave, aponta o jornalista (Francisco, 2016), que na sequência do momento pessoal difícil vivido pelo treinador português Quinito sustenta que a vida das pessoas hoje em dia é vivida depressa demais. Todos nós temos a sensação, mais tarde ou mais cedo ao longo das nossas vidas (e viver uma tragédia pessoal torna isso dramático de suportar),mas todos nós temos a noção de que não gozamos todas as coisas que a vida nos proporciona, da forma que devíamos, porque andamos a correr de um lado para o outro”.

Esta vertigem pela velocidade transportou-se para o jogo de Futebol, sendo esta a perspectiva do treinador português (Villas-Boas, 2009), ao explicar que “a transição ofensiva agressiva vai um bocado de encontro ao pânico e à velocidade do Futebol actual, há pressão em torno dos treinadores de vencer, há pouca capacidade de pensar, como falávamos há bocado dos jogadores, há o sentido de urgência que o jogo actual tem…é tudo pânico, é tudo velocidade… e transmite um bocado a ideia do que é a sociedade actual… portanto, acho que no jogo tu encontras esse tipo de traços, portanto a transição agressiva e objectiva tu acabas por encontrá-la mais vezes por isso mesmo… porque a pressão de vitória ou a pressão de um resultado sobre o treinador é decisiva e realmente é um momento onde tu podes ter grandes probabilidades de sucesso… porque realmente se for bem-feita é quando encontras o adversário desorganizado”. O autor (Rocha, 2013), constata que “virou quase sinónimo de futebol de alto nível. “Equipa X venceu a equipa Y porque foi mais intensa”. “Sem intensidade é impossível vencer”. “Eu exijo intensidade máxima dos meus jogadores””. Também (Carvalhal, 2011) constata que hoje “é comum ouvirmos a palavra Intensidade. São várias as expressões que fazem parte da linguagem do futebol em que a palavra Intensidade está presente: “O jogo foi muito intenso”, “a minha equipa não teve intensidade”, “aquele jogador é muito intenso”, ou ainda “aquele não tem intensidade para jogar a este nível””. Carlos Carvalhal, refere ainda que é comum “vermos uma equipa entrar apressionar muito o adversário nos primeiros minutos e ouvirmos dizer que esta está a jogar com elevada intensidade! Será assim? Muitas vezes o que eu vejo é uma pressão “cega”, puramente emocional e desprovida de organização com muitas corridas sem sentido”.

“Que lance! É intensidade, mas também, alto lá!”

Comentário do jornalista desportivo a um choque aparatoso entre três jogadores no jogo Norwich x Chelsea de Março de 2016, (BenficaTV, 2016)

“Vibram os arautos do andamento

com o aumento da correria

p’ra eles aí reside o talento,

o jogo esse virou porcaria!

Jogadores de futebol

de atletas tavestidos,

dando à correria lugar-ao-sol

o futebol fodem e são fodidos!”

(Frade, 2014)

Passou a importar fazer tudo muito rápido, independentemente do contexto. Esta rapidez emergente passou a ser conotada como intensidade, porém ainda muito influenciada pelo paradigma cartesiano, transformando-a numa intensidade “física”, patente no deslocamento e na velocidade de execução. O treinador português (Carvalhal, 2011) parece estar alinhado com esta ideia ao explicar que comummente “diz-se que é intenso quando se corre muito, quando se luta muito, quando se é agressivo! No fundo, utiliza-se esta palavra com uma conotação meramente “física”, associada principalmente à força e velocidade!”

Consequentemente, esta mentalidade empurrou, na organização ofensiva das equipas, para uma, supostamente imprescindível, constante agressividade e urgência em chegar à baliza adversaria, tornado o jogo, independentemente de mais curto ou mais longo, mais vertical. Esta ideia tornou-se moda, por ter sido facilmente associada ao sucesso de algumas equipas. É desta forma que surgem os lugares comuns e os preconceitos.

““P’ra trás mija a burra”

ou “p’ra frente é que é o caminho”,

é o oposto do que assegura

ligar velocidades, sentidos e o devagarinho.”

(Frade, 2014)

Neste enquadramento, prevaleceu o “fazer muito”, sobre o “fazer bem”. Como consequência, o treinador português (Carvalhal, 2010), descreve “que muitas vezes as equipas correm até demais, lutam, são intensas, no entanto falham muitos passes e por vezes perdem organização…” Portanto, essas equipas podem até fazer “muitas coisas” no jogo, mas globalmente, não fazem as certas. Constata-se assim, que a transição da Periodização Física sustentada pelo pensamento linear e mecanicista, à Periodização Táctica e respectivo pensamento complexo tem sido lenta, sendo a perspectiva com que se vê a Intensidade um bom exemplo. Portanto, apesar de ser cada vez mais forte a corrente de pensamento que elege a dimensão Táctica como nuclear no rendimento dos Desportos Colectivos, surgem ainda muitas incoerências ideológicas que subsistem da corrente ideológica anterior.

“Jogo apressado

só pode ser atabalhoado,

e a envolvência que promove

na continuidade pode…

O cérebro ausentar

de quem o jogo joga,

e também de quem o observar

e descerebralizado virar moda,

e quem o vê assim

pensar que assim ele sempre foi

e este cenário a mim

sinceramente acreditem, dói!”

(Frade, 2014)

Que intensidade então?

 

““Ele tinha que ser mais rápido,

a equipa tem de meter mais velocidade”

resumo do pensamento dito táctico

do que chamam qualidade,

da menoridade…”

(Frade, 2014)

Este entendimento físico da Intensidade terá tido origem no longo do período da história do treino desportivo dominado pela visão cartesiana e desintegradora do homem, que separou corpo e mente, materializada na Periodização Física. Esta concepção de intensidade surgia associada ao estímulo, ou na convenção então vigente – “carga” do treino, numa perspectiva estritamente físico-energética. O autor (Romano, 2007) confirma que “nas décadas de 60 e 70, aqui designados por Periodização “Convencional”, parece existir uma definição bem clara do conceito de intensidade, que surge “arrastado” pela noção tradicional de carga, e é indissociável da noção de volume”. Romano acrescenta que “a intensidade, tal como o volume, aparece como factor da carga e é caracterizada pelo valor de cada estímulo e pelo trabalho realizado por unidade de tempo(Matveiev, 1977), estando relacionada com os níveis de concentração da quantidade de trabalho no tempo. É, normalmente, avaliada através da velocidade e ritmo dos movimentos e pelo grau de dificuldade que estes colocam (Rebelo, 1990)”. Neste sentido, durante muito tempo, a intensidade implicava principalmente velocidade na execução do movimento, portanto, velocidade da contracção muscular. Identificava assim, quantidade de trabalho ou movimento por unidade de tempo. Entre outras variáveis, o relacionamento entre volume e intensidade da “carga” contribuiria para a estimulação das diferentes qualidades físicas – resistência, força e velocidade. Nesta lógica, (Silva, 1985) relata que a intensidade “é a DIMENSÃO VOLITIVA da carga. Mede o grau de empenhamento com que se enfrenta uma resistência numa situação concreta perfeitamente definida”. Neste entendimento o autor sustenta dois tipos de intensidade: “INTENSIDADE INSTANTÂNEA — grau de empenhamento com que num determinado instante se luta para vencer uma resistência e INTENSIDADE ACUMULADA — esforço volitivo que permite manter constante um determinado grau de Intensidade Instantânea por um período de tempo maior ou menor”.

Assim, Monge da Silva descreve que “a massa muscular solicitada determina uma adaptação a nível orgânico ou muscular, mantendo uma dessas direcções, as Condições Objectivas e Concretas de Realização do Movimento podem inviabilizar um trabalho de FORÇA (utilização de resistências fracas) ou de VELOCIDADE (utilização de resistências máximas), finalmenteINTENSIDADE INSTANTÂNEA vai definir mais precisamente as características da adaptação determinando, por exemplo, a utilização de uma ou outra fonte de energia ou a mobilização de um número maior ou menor de fibras musculares”. Deste modo o autor destaca que a intensidade é um FACTOR DIRECCIONAL no treino. O autor (Romano, 2007) conclui, através do seu percurso universitário, que “o entendimento teórico e prático de intensidade que vamos adquirindo ao longo dos primeiros anos do percurso académico no ensino superior é, sobretudo, orientado pela noção de «carga» e, mais especificamente, «calculado» de acordo com o valor quantitativo do estímulo e o trabalho realizado por unidade de tempo.” O autor acrescenta ainda que a intensidade tem sido avaliada, sobretudo, através da análise do binómio tempo-movimento, da monitorização da frequência cardíaca, das concentrações sanguíneas de lactato e da percepção subjectiva do esforço (Borg, 1998, cit. por Aroso, 2003). É, por isso, uma aproximação à caracterização fisiológica do esforço”.

Todavia, independentemente no seu entendimento, a intensidade foi sempre conotada como um factor qualitativo da carga / estímulo. Como exemplo, o autor (“JFARATH2013”, 2014) sustenta que “o volume é o factor quantitativo, relacionado com o número de repetições, séries, tempo, frequência de treino por semana. A intensidade por outro lado é o factor qualitativo do treino. Componente extremamente importante, uma vez que indica o grau de esforço empreendido numa tarefa. Apesar de poder ser entendida como a densidade do treino ela é ligada ao indivíduo e à sua condição física, variando de pessoa para pessoa, mesmo que elas compartilhem o mesmo processo de treino”. Esta associação à qualidade surge também pelo rendimento que o aumento da intensidade supostamente provoca na acção desportiva. Nesta lógica ficou no entanto esquecida a vastidão de desportos e as suas diferentes características. Esta perspectiva pode fazer sentido nos Desportos Individuais no qual o rendimento, embora eternamente influenciado pela dimensão Psicológica, é ditado de forma premente pela dimensão Física. Nestes, como são exemplos as provas curtas de atletismo e a natação, o aumento da intensidade, associada à eficiência do movimento (dimensão Técnica), controlando simultaneamente a fadiga, levará, muito provavelmente, a melhores desempenhos.

Contudo, surgem uma vastidão de desportos, nos quais a dimensão Física perde influência para a Táctica, ou seja, a decisão torna-se fulcral na qualidade da acção, consequentemente, no desempenho. Como exemplo extremo, noutro ponto do universo desportivo, surge o automobilismo, reconhecido como desporto, mas no qual o desempenho físico é claramente menos importante que as decisões tomadas pelo condutor. Podemos então dizer que a actividade realizada pelo mesmo não é intensa? É certo que um piloto termina uma corrida extremamente fatigado…

Por outro lado, recorrendo ao mesmo exemplo, se pensarmos nas consequências das suas decisões sobre o automóvel e portanto, será que conduzir permanentemente à velocidade máxima, à imagem dos exemplos das provas de atletismo e natação de curta duração, será sinónimo de qualidade, rendimento, e portanto podemos dizer, de intensidade? Não. Ser intenso aqui, implica muitas vezes desacelerar, travar e até mesmo parar na “Pit stop” para uma assistência. Os Desportos Colectivos apresentam constantemente as mesmas necessidades acrescendo-lhes ainda a complexidade que trás a dimensão colectiva do mesmo. A este propósito, José Mourinho citado por (Gaiteiro, 2006) explica que costuma dizer “que uma das coisas que fazem com que o treino seja mais intenso e quando se fala em intensidade fala-se em desgaste energético – é a concentração exigida. Por exemplo, correr por correr tem um desgaste energético natural, mas a complexidade desse exercício é nula. E, como tal, o desgaste em termos emocionais tende a ser nulo também, ao contrário das situações complexas onde se exigem aos jogadores requisitos técnicos, tácticos, psicológicos e de pensar as situações, isso é que representa a complexidade do exercício e que conduz a uma concentração maior”.

Nas últimas décadas, com a mudança de paradigma no treino dos desportos colectivos, surgiram vários estudos na área da neurofisiologia que salientaram a importância do Sistema Nervoso Central perante um estímulo de treino. Neste entendimento mais complexo, o conceito de carga perde sentido, fazendo mais sentido pensar em estímulo, dado este ser também dirigido ao Sistema Nervoso Central, para além dos Sistemas Físico-Energéticos. Com esta ruptura na metodologia de treino dos Desportos Colectivos, e substituição da Periodização Física pela Periodização Táctica, faz também sentido que o conceito intensidade também sofra uma mudança de perspectiva. De acordo com os autores (López, et al., 2010), “a intensidade foi sempre identificada através de referências físicas, porém ultimamente esta visão está a mudar, começando-se a manifestar uma nova concepção de treino que altera a perspectiva sobre a mesma. Fala-se assim de intensidade de concentração, que desgasta o Sistema Nervoso Central e que consequentemente limita o rendimento, ainda mais que a própria dimensão física”. A intensidade deixa assim de descrever apenas o trabalho físico, passando também a ser ligada à concentração, tomada de decisão, e seus processos ao nível do Sistema Nervoso Central. Segundo (Romano, 2007), “revela-se aqui uma distinção clara entre a intensidade unidimensional (dimensão física/fisiológica) conjecturada na Periodização “Convencional”, com uma outra, pluridimensional, que é enriquecida por todas as dimensões passíveis de influenciar o rendimento de qualquer acção”. O autor esclarece que sendo assim, a intensidade, mais do que ser gerada pelos períodos descontínuos de grande velocidade dos jogadores, é, em primeiro lugar, gerada pela existência dessa mesma organização e das exigências que a mesma acarreta sobre todas as dimensões”. Os autores (López, et al., 2010) denominam esta visão da intensidade como intensidade táctica, descrevendo que trata o “nível de concentração que um futebolista tem que manter para decidir e executar as acções exigidas pelos comportamentos tácticos requisitados no jogo”. O treinador português (Jesus, 2008) associa-se a esta visão descrevendo que num jogo, a sua equipa manifestou “grande intensidade técnica e táctica”.

Tendo por base a concepção metodológica de Vítor Frade, o autor (Romano, 2007), chega à ideia de Intensidade Máxima Relativa, pois citando Guilherme Oliveira, será a intensidade necessária para executar determinada acção (jogada, exercício, jogo, etc.) com mérito e que, enquadrada num processo colectivo, se evidencia como uma dinâmica. Deste modo, os termos «máxima relativa» surgem associados, fundamentalmente, ao objectivo a que se propõem os exercícios (Costa, 2002) e à intencionalidade que existe, por parte do jogador, na execução da acção. Ou seja, se a acção executada é a adequada em relação ao Modelo de Jogo Criado, ela é máxima precisamente por ser a necessária à intenção que existe. Ora, essa acção pode ser ficar parado, ou correr à velocidade máxima, não está dependente das “capacidades” físicas do jogador. “Pode ser muito mais intenso um exercício menos veloz, mas que implica uma articulação determinada, porque exige mais concentração” (Frade, 1998: 15, 16)”. Nesta linha de pensamento também se perfila (Egea, 2016), ao defender que “intensidade é responder da melhor maneira possível no menor tempo a um problema do jogo antecipado e treinado anteriormente. Se é permitida esta definição, as suas implicações são inumeráveis. A intensidade, e aqui parece existir unanimidade, não se entende sem concentração”. Para (Almeida, 2009), a intensidade é então “associada à concentração táctica, ou seja, refere-se a uma intensidade decisional e não, como é comummente aceite, ao desgaste das reservas energéticas do organismo (Oliveira, 2005; Tamarit, 2007)”.

O autor (Junior, 2011) expõe então que sendo assim “a intensidade é máxima relativa, ou seja, depende da velocidade do jogo e da complexidade táctica das acções para a intensidade ser máxima ou submáxima. Portanto, essa classificação é subjectiva”. Também Júlio Garganta citado por (Romano, 2007) explica ainda que os melhores não jogam apenas mais depressa. Jogam, sobretudo, mais eficazmente, fazendo variar a velocidade de realização e de jogo, em função das características do momento e das possibilidades de evolução das linhas de força da jogada”. Nesta lógica, o treinador espanhol Juanma Lillo citado pela jornalista (Cabral, 2016), relata que “quando treinava o Saragoça, um jogador veio ter comigo no início da época e disse-me, todo contente: “Mister, estou melhor do que nunca fisicamente.” Olhei para ele e respondi-lhe: “Isso é a pior notícia que me podias dar. Agora vais estar em mais sítios errados mais vezes””. Então (Romano, 2007) conclui então que “a intensidade surge pela exigência do desgaste nas estruturas presentes no acto de jogar: as estruturas locomotora (ossos-músculos-articulação), orgânica (orgãos que alimentam a estrutura locomotora) e perceptivo-cinética (sistema nervoso e orgãos dos sentidos)”.

“A qualidade requer diversidade

do tempo, sem ansiedade…

Faz da intensidade mais do que velocidade

dando às velocidades da velocidade, qualidade!”

(Frade, 2014)

“Vejo um animal menos forte do que alguns, menos ágil do que outros, mas que, ao fim e ao cabo, é de todos o mais bem organizado”.

Jean-Jacques Rousseau citado por (Romano, 2007)

 

Uma intensidade complexa

 

“O que define a intensidade

é o concreto onde o jogar

p’ra expressar máxima qualidade,

tal contexto tem de superar.”

(Frade, 2014)

Na procura da complexidade que o jogo de Futebol exige, (Carvalhal, 2011) recorda que no seu estudo monográfico levantou a seguinte questão: “é mais intensa uma corrida de 50 m em corrida livre à máxima velocidade ou uma corrida na mesma distância com uma bandeja com dois copos de água em que para venceres não podes deixar cair a água do copo?” O autor explica que “para alguns consideram a primeira, porque se reportam meramente ao “físico”, para mim claramente que é a segunda, porquê? Porque tens que dar o teu máximo com uma dificuldade adicional que te vai exigir muito a nível da concentração. No fundo essa dificuldade vem pelo aumento da complexidade da tarefa. Mudou-se o critério de desempenho, aumentou-se a complexidade logo aumentou-se a intensidade.” Também o treinador português José Mourinho, citado por (Romano, 2007), assume a mesma perspectiva referindo que “por norma, quando se fala em intensidade fala-se em desgaste energético. Eu não penso assim. Fundamentalmente, o que faz com que o treino seja mais ou menos intenso é a concentração exigida. Por exemplo, correr por correr tem um desgaste energético natural, mas a complexidade desse exercício é nula. Como tal, o desgaste em termos emocionais tende a ser nulo [entenda-se reduzido] também, ao contrário das situações complexas, onde se exige aos jogadores requisitos tácticos, técnicos, psicológicos e físicos. É isto que representa a complexidade do exercício e que conduz a uma concentração maior.”

Citado por (Rocha, 2013), o treinador brasileiro Tite explica a intensidade como “a capacidade do atleta pensar o mais rapidamente possível – incluem-se aí visão, antecipação, entendimento, criação, decisão, etc. – sobre as jogadas realizadas e/ou a serem realizadas e a velocidade de execução dos movimentos com aptidões físicas como força, velocidade, coordenação… Afora as indispensáveis e essenciais técnica e habilidade”. Rocha reforça que a intensidade está implícita em comportamentos de “compactação, troca de posições, tomada de decisão. Inteligência para acelerar ou desacelerar. O que se costuma chamar de “leitura de jogo””. O autor, conclui que esta intensidade é uma necessidade do Futebol Brasileiro, dos clubes às selecções e remata, “transformar conceitos em prática é o desafio brasileiro. Compreender a importância e a aplicação da intensidade na dinâmica de jogo pode ser um bom início”. Neste enquadramento, o treinador português Jesualdo Ferreira em 2006, citado por (Romano, 2007), defende que a “intensidade não se mede apenas pela capacidade física. Mede-se, também, pelas acções tácticas.” Também (Fidalgo, 2015) entende como intensidade a “capacidade de estar no sítio certo, tendo a equipa posse de bola ou não”. O mesmo autor acrescenta que “ter intensidade exige reacção rápida e adequação às alterações do contexto, é preciso ler e entender o jogo”. O ex-jogador do FC Barcelona (Hernández, 2016) reforça esta ideia, ao explicar, a propósito da decisão pela desmarcação ou ficar parado, que “tudo depende do que está acontecendo à tua volta, do posicionamento dos teus colegas e dos teus adversários. Isto é tão complicado, que cada jovem que chega ao FC Barcelona, leva pelo menos quatro meses a adaptar-se a isto. No mínimo…quatro meses!! Por isso, a qualidade técnica e a rapidez de raciocínio é o mais importante aqui. Se não és inteligente, não podes jogar no Barça (risos)! Acho que isso já diz tudo… Porque, às vezes tens de fazer uma coisa, e logo a seguir, tens de fazer o oposto. Tens de saber…

Perante estas necessidades táctico-estratégicas que o jogo traz, chegamos a um entendimento complexo de intensidade que vai além da perspectiva individual de rendimento, sendo assim, direccionado para uma ideia colectiva de jogo. Neste sentido, (Romano, 2007) concorda “com a definição pluridimensional de intensidade apresentada por Sá (2006a) como o nível de solicitação das competências que o acto de jogar impõe e que o Modelo de Jogo define à partida. O mesmo autor (Sá, 2006a) acrescenta ainda que os contributos que lhe estão inerentes são o cognitivo, a emoção, o perceptivo-cinético e motor, o orgânico e o social/organizativo. Desta forma, a um desempenho de qualidade das acções surge associado um nível de solicitação pluridimensional (intensidade) óptimo, que pode ser definido como intensidade máxima relativa e cuja actuação será, como veremos, potenciada através do treino”.

O treinador português (Carvalhal, 2011) enfatiza que “os jogadores no Jogo expressam esse critério de desempenho, tentando realizar as acções procurando eficiência e eficácia respeitando uma determinada forma de jogar”. Também (Romano, 2007) refere ir ao encontro de “Marques e José Oliveira (2001), quando sublinham a importância da qualidade dos estímulos de treino. E é por esse facto que referimos que é a representação da dimensão qualitativa do desempenho, e não da carga, que nos interessa. O primado terá de estar na qualidade da organização da equipa em termos colectivos, e na qualidade que cada jogador individualmente, dentro de um padrão de referências colectivas, coloca em acção, no treino e no jogo”. Desta forma, Carvalhal defende que a posse de bola do Barcelona de Guardiola é “extremamente intensa! Ela é intensa porque tem critério de desempenho ofensivo (ter a bola muito tempo de forma a desorganizar o adversário) e dentro desse critério é eficiente e tem eficácia! Os jogadores para respeitar o seu Modelo não precisam de correr muito nem de ter muitíssima força…” Nesta linha de pensamento o treinador português José Peseiro, citado por (Romano, 2007) sustenta que uma equipa boa corre pouco e joga muito”. Ainda (Romano, 2007) remata afirmando que “se o mais importante é a táctica entendida como cultura de jogo (Frade, 2003a), como tentativa de compreensão e execução de uma ideia comum, também o conceito de «Intensidade» deve respeitar essa noção. Como indica Eric Cantona (2006: 60), “não podes ser um grande jogador se não fores inteligente”, nem tornar uma equipa grande sem «criar» jogadores inteligentes”.

Segundo (Romero, et al., 2012), na aplicação da metodologia Periodização Táctica, os exercícios têm de ser realizados a alta intensidade, “caso contrário a dimensão física diminui”. Por outro lado, não basta que a intensidade do treino seja elevada. É fundamental que ela esteja controlada, organizada e contextualizada. O autor (Romano, 2007) explica dando exemplos, que “o mesmo exercício, solicitando os mesmos princípios, poderá, no início do processo de treino, indiciar uma grande intensidade e, com a sua familiarização, numa fase mais adiantada do processo de treino, essa intensidade ser menor. Em termos relativos deverá ser sempre máxima. Da mesma forma, entre uma equipa de maior qualidade e outra de menor qualidade, com os mesmos exercícios, a intensidade deverá variar, tendo em conta a relatividade da complexidade – é relativa ao nível das variáveis, mas também do jogador/equipa.”

Assim, abandonando a perspectiva física tradicional do treino e dando prioridade à origem do movimento, no Sistema Nervoso Central, chegamos então a outro entendimento da Intensidade. Rui Faria, citado por (Sousa, 2007), explica que “quando falamos em intensidade, nesta perspectiva temos de falar em intensidades de concentração. Nós não perspectivamos a intensidade sob um ponto de vista fisiológico na base do intenso: é maior ritmo, é maior velocidade é maior tudo aquilo que as pessoas quiserem chamar em termos físicos mas, na realidade é perceber que falar em intensidade é falar-se em concentração e falar-se em intensidade de concentração não é sinónimo de intensidade de concentração com o maior ritmo do que quer que seja. Por vezes, um exercício mais intenso sob o ponto de vista da concentração não o é sob o ponto de vista fisiológico.Portanto, quando perguntas se não acreditamos em volumes, em alternâncias de volumes, nós só acreditamos em intensidade e intensidades máximas relativas sob essa perspectiva porque só trabalhamos nessa perspectiva. O objectivo é a organização e é a concentração porque queremos implementar ideias e a maior exigência passa pela concentração do jogador. Agora, temos a noção que isto tem de ser progressivo. É como o indivíduo que está a ler um livro e não esteja habituado, ao fim de cinco páginas já está cansado e com uma dor de cabeça, mas, progressivamente consegue ler cinco, dez ou quinze, não sei se me estou a fazer entender. Em termos de treino é isto, é informação que passa, da menor complexidade para a maior, também tem de acontecer de forma, naturalmente, progressiva, para que se crie essa adaptação. E falar-se em intensidade nesta perspectiva, é estarmos a falar em termos mentais, é estarmos a falar em intensidades de concentração”.

“A pausa ritmada…

Não é perda de tempo,

tem na percepção orientada

a selecção p’ra cada acontecimento!”

(Frade, 2014)

 

Consequentemente, intensidade… de concentração

 

“Nos treinos, parece que estamos a jogar, tal é a intensidade e a concentração. Parece que estamos mesmo no jogo. Temos de estar verdadeiramente acordados para o treino.”

Tiago (2005: 24) citado por (Romano, 2007)

O treinador português José Mourinho, citado por (Gaiteiro, 2006) acredita numa intensidade “que difere totalmente do significado que normalmente se lhe atribui. Não consigo dissociar a intensidade da concentração. Quando digo que o futebol é feito de intensidades elevadas, refiro-o tendo em conta a complexidade que tem implícita e a necessidade de concentração permanente que dela advém”. Também Rui Faria, citado por (Bouças, 2012) explica esta perspectiva, defendendo que “a intensidade é fundamentalmente de concentração, porque o jogo implica, principalmente, pensar”. Os autores (Casarin, et al., 2010) explicam que nesta perspectiva a intensidade não está dependente apenas de “questões de âmbito fisiológico mas, sobretudo, de intensidades de concentração e de constante pressão competitiva. Um exemplo muito fácil para percebermos relaciona-se com a marcação de um penalty, por exemplo, este é um exercício ou acção de jogo que em termos de intensidade fisiológica é quase insignificante éno entanto uma acção que acarreta uma elevadíssima carga emocional e de grande intensidade para o sistema nervoso central. Aquilo que se pretende é que independentemente do exercício provocar ou não grande desgaste energético, este seja capaz de provocar nos jogadores uma pressão competitiva o mais próxima possível da realidade competitiva”.

Desta forma, na lógica da Periodização Táctica, assiste-se metodologicamente à inversão no binómio Volume-Intensidade, sendo agora a Intensidade que “comanda” sempre o processo, passando o Volume ao somatório de fracções de máxima intensidade (volume de intensidades / volume de qualidade) de acordo com as acções tácticas da equipa – o modelo de jogo idealizado e o desgaste de concentração e físico-energético delas subjacentes. O treinador português (Carvalhal, 2002) defende a ideia, sustentando que “impõe-se ao nível do treino uma inversão do binómio volume-intensidade, a intensidade é quem “comanda”, e o volume deve ser gerido durante o microciclo como o somatório de fracções de máxima intensidade (volume de qualidade) de acordo com o modelo de jogo adoptado”. O autor (Gaiteiro, 2006) cita Vítor Frade que explica que “quando falamos em intensidade temos de falar em intensidade de concentração; quando falamos em volume temos de falar em volume de intensidades de concentração. ( ) Estar no jogo é, fundamentalmente, estar a pensar e a tomar decisões, o que exige que se esteja concentrado em função do que é fundamental no nosso jogo”.

Assim, (Gaiteiro, 2006) defende “um volume de intensidades máximas mediadas pela necessidade de estar concentrado na realização da ideia de jogo do treinador e, como tal, exige uma participação activa do córtex cerebral. Um volume de conteúdos de jogo que se revê na manifestação de intensidades máximas relativas, máxima pois é função daquilo que os jogadores podem fazer na eferência do comportamento, no instante imediato e portanto variável em função do hiato de tempo que se observa. Visto isto, a intensidade não é abstracta pois é função dos princípios e subprincípios de jogo que elaboram e sobrecondicionam o futuro e requisitam o pensamento. O acumular de estímulos específicos e consequente adaptação, capacita o jogador de possibilidades diferentes, porventura mais intensas, resultante de um esforço em concentração, tanto mais exigente, tanto mais importante quanto mais variáveis tiver que articular (Frade, 2003, 15), pois a realidade subjectiva de Mourinho só faz sentido desde que desenvolvida na relação harmoniosa das partes que formam o todo, o jogar na especificidade que se lhe exige. Um volume de especificidades, pois a construção das imagens mentais que estão na base do comportamento evidenciam de forma criativa propriedades, processos, relações e acções do organismo com o mundo com que se deparam (Damásio, 1994)”.

Deste modo, segundo (Esteves, 2010), deve-se treinar “em Intensidade Máxima, pois o Futebol é um jogo de intensidades máximas relativas, onde deve-se ser superior a inúmeros constrangimentos durante o tempo de jogo. Portanto, não há lógica em treinar em baixas intensidades, se queremos adquirir HÁBITOSem alta intensidade, porém no(s) treino(s) a INTENSIDADE MÁXIMA éRELATIVA. Cada dia tem uma INTENSIDADE MÁXIMA, esta intensidade não é física, porém traz por arrasto todas as dimensões, a fim de adquirir determinado comportamento”. O autor conclui assim que “O TREINO RECLAMA UMA – INTENSIDADE MÁXIMA RELATIVA DE CONCENTRAÇÃO”. Esteves defende que a intensidade deve ser MÁXIMA, “porque o hábito está interligado à continuidade de habituação, todos os dias a intensidade deve ser máxima, no limite máximo da concentração do que se quer buscar”. Por outro lado o autor explica que deve ser RELATIVA na perspectiva em que “a intensidade de terça não é a mesma de quinta, nem sexta, porém não deixa de ser máxima”. E finalmente deve ser DE CONCENTRAÇÃO, porque “quanto mais concentrado o jogador se encontrar, mais densa será sua participação em termos de tomadas de decisão, acções…menos erros”. A propósito do trabalho da equipa técnica de José Mourinho no F. C. do Porto, ainda (Faria, 2003), explica que “trabalhámos desde o primeiro dia em intensidades altas relativas, ou seja de acordo com aquilo que é o rendimento máximo que o jogador nos pode dar em determinado momento”. Por outro lado, (Guilherme Oliveira, 2004), citado por (Romano, 2007), explica a intensidade máxima relativa de uma forma mais geral, como sendo “a necessária para executar determinada acção (jogada, exercício, jogo, etc.) com mérito”.

Segundo (Maciel, 2011), “quando se fala em intensidade máxima relativa, devemos considerar que tem a ver com a necessidade de se perceber o que é um valor alvo, ou seja, trata-se de um problema de escolha e de critério face aos condicionalismos circunstanciais que o contexto me coloca. Tem portanto que ver com o ajustamento. Por exemplo eu posso ter uma velocidade de deslocamento máxima bastante grande, mas não fazer dela o melhor uso, ou seja, não a aproveitar em conformidade com o que o jogo me requisita. O Messi não é mais rápido que o Walcott, mas tem muito mais critério no uso que faz da velocidade, tem timings mais ajustados, acelerações, travagens e mudanças de direcção em conformidade com o que lhe vai sendo necessário, por isso joga regularmente em intensidades máximas relativas, porque face ao contexto ela ajusta para lhe responder com o desempenho mais eficaz e eficiente. Isto no que se refere à intensidade relativa ao nível do desempenho de um jogador, ainda que como se torna evidente em interacção cooperante ou de oposição. Mas podemos também falar noutro tipo de intensidade máxima relativa, a que se reporta ao grau de intensidade ou complexidade requerido em cada dia do Morfociclo. O que se pretende na Periodização Táctica é que a intensidade na vivenciação de um jogar seja sempre máxima, entendendo-se a intensidade associada à concentração e também à qualidade do desempenho, o tal problema do ajustamento que salientei. Contudo, como a configuração padronizada de cada dia difere, também a intensidade implicada nas várias unidades de treino difere. Há portanto que relativizar a noção de intensidade máxima. O treino de quarta-feira tem nos exercícios menos elementos em interacção que o de quinta-feira, o que faz com que a intensidade de quinta seja “mais intensa”, pela maior complexidade que comporta, que a de quarta-feira que no entanto, para aquele padrão de desempenho tem de ser máxima. O mesmo sucede com os restantes dias do Morfociclo padrão, as intensidades têm de ser relativizadas em função do padrão de exercitação e de aquisição implicados na respectiva sessão, sendo que a intensidade máxima em cada dia emerge da qualidade dos desempenhos manifestos, ou seja, do modo como os jogadores se ajustam e reajustam aos estímulos que sobredeterminam as suas acções nos contextos de exercitação”.

Ainda para (Maciel, 2011), “na Periodização Táctica a intensidade está necessariamente associada à concentração, e a sua evolução ocorre do mesmo modo, ou de forma análoga ao que sucede com a evolução do jogar. Isto é, acontece fundamentalmente fazendo. E claro, eu entendo que há um aspecto determinante para que o processo tenha intensidade, que é a capacidade que o treinador tem para liderar o processo. Só sabendo liderar, independentemente do modo, se pode exigir dos jogadores, ou melhor, se eu for de facto líder consigo catalisar os jogadores no sentido de se implicarem activamente, e necessariamente concentrados, na vivenciação do processo, ou seja, liderar é fundamental para ter qualidade e como tal intensidade nos desempenhos e somente desse modo emergirá uma Especificidade de qualidade. Depois claro está, há também outros aspectos como a necessidade de alimentar a concentração em função daqueles que são os estados que a equipa vai manifestando ao longo do processo, e aí além da liderança os próprios conteúdos de treino e o ajustamento às circunstâncias de determinado período ou circunstâncias que a equipa está a viver são aspectos relevantes. De uma forma geral temos de ter consciência que a evolução da complexidade vai de encontro ao Princípio da Progressão Complexa, do menos para o mais complexo e sabendo que isso não é linear, e que além disso em determinadas alturas menos é mais. Um aspecto interessante é que, em termos ideais, eu não imponho concentração devo antes levá-los a estarem concentrados pelo fazer, pelo perceber e por gostarem de fazer e perceber, nesse sentido é também uma emergência do processo. Se o meu processo é desmotivante, não evolui, involui, regride, se for estimulante passa a instalar-se como hábito e como tal acontece espontaneamente. E aqui eu penso que a Periodização Táctica apresenta várias vantagens relativamente às restantes metodologias, desde logo permite que os jogadores adquiram algo em concreto fazendo o que gostam, isto é, jogando, e além disso pela tentativa de desenvolvimento concomitante do saber fazer com o saber sobre esse saber fazer faz com que os jogadores se sintam mais implicados e activos na construção do jogar, logo também à partida mais motivados para o fazer, pois sentem esse jogar como parte sua”.

Neste enquadramento, autor (Romano, 2007) conclui que a intensidade expressa-se através da acção do jogador, podendo ser qualificada através da sua intencionalidade e eficácia.” No entanto, o mesmo autor ressalva que “a intensidade expressa na intencionalidade da tomada de decisão, de acordo com o Modelo de Jogo Criado, não é uma intensidade rígida, mas sim flexível e adaptável à situação, tendo como base os princípios de jogo construídos na operacionalização do processo de treino”. Desta forma, o autor explica que actuar em intensidade, é actuar “com altos níveis de concentração, empenho e capacidade física, que permitam um elevado desempenho, de acordo com o Modelo de Jogo Criado”.

“A variabilidade de escolhas

a cada instante

é como um livro de muitas folhas

pode ser infindável

mas decifrável

relevante

se como num romance,

contextualiza

a inteligência da decisão,

actualiza

o executar

que ao jogar

não é técnica é precisão,

faz activa

a intensidade máxima relativa,

já que em cada instante significante

a concentração da percepção

é dominante.”

(Frade, 2014)

 

O desgaste da intensidade

 

“Dizem estar na redução

o ser intenso…

É isto o contrário do que penso,

só é máxima a intensidade

pela específica qualidade

que se acompanha da máxima emoção.”

(Frade, 2014)

O autor (Carvalhal, 2003), sustenta que “treinar com base em intermitências máximas de acordo com o modelo de jogo idealizado, vai criar o hábito no organismo de se cansar a realizar este tipo de esforço, mas também em função deste tipo de esforço a recuperar mais rapidamente”. Ainda Carvalhal explica que “segundo Silva (1993) citado por Vieira (1993), devemos trabalhar fundamentalmente acções de máxima intensidade instantânea, que têm a vantagem de não ser tão desgastante e asseguram fácil recuperação. Será então importante estabilizar também as recuperações”. Também para o autor (Ramos, 2004) o treino deverá conceber uma intensidade através da concentração de estímulos de trabalho de uma mesma orientação em períodos curtos de tempo. Desta forma surge uma tendência de desenvolvimento consecutivo de qualidades / comportamentos, aproveitando o efeito residual de determinados estímulos de trabalho.

Segundo (Esteves, 2010), “para tomar as decisões de modo mais eficaz, os estímulos (informações dadas aos atletas, intensidade Táctica ou aquisição de conceitos vividos noutros períodos do processo de aquisição desses elementos) durante o processo, deverão ser intensos em todos os aspectos de adaptação. Isso está implícito no dia-a-dia do treino, uma vez que a abordagem feita por quem gere o grupo está amparada pela questão da imprevisibilidade de acções”.

 

Considerações finais

 

Podemo-nos questionar se não estaremos “apenas” a discutir terminologia ou o entendimento teórico de um conceito. Contudo, na realidade as consequências práticas desse entendimento são tremendas. São para a forma de jogar das equipas, são para o treino e são até para o ideal de sociedade em que desejamos viver. Quando, no Futebol de Formação, os mais jovens jogadores falam sobre intensidade, estamos então perante um sintoma da sua real importância.

Como abordado no primeiro capítulo do trabalho, é sem dúvida um tema que se encontra na moda. Treinadores, jogadores, árbitros, dirigentes, jornalistas e também adeptos, todos falam de intensidade e quase todos a exigem. Mas será que a intensidade é actualmente perspectivada à luz da complexidade que a realidade que nos envolve reclama? Como foi defendido ao longo do trabalho, a implicação que a intensidade terá, se pensada sob a esfera de acção da SupraDimensão táctica, será decisiva para atingirmos outro patamar na evolução do treino e da forma de jogar das equipas. É visível o desenvolvimento que o treino e o jogo viveram na última década, no entanto dada a não linearidade do progresso, existem ainda conceitos que subsistem numa zona cinzenta. A intensidade é um bom exemplo e este trabalho teve o objectivo de contribuir para essa evolução.

Após o estudo que realizámos ao tema, constatámos a escassez de abordagens ao mesmo sob o pensamento complexo, o qual, pela aproximação que faz à natureza do Universo, acreditamos vir no futuro a ser basilar em todas as áreas científicas. A explicação para o facto estará do lado oposto, no pensamento analítico e na profundidade com que este ainda se encontra enraizado na nossa cultura e visão das coisas. Sentimos ser extremamente difícil a mudança de paradigma e isso leva-nos a outras questões como são exemplo a forma como ensinamos e educamos.

Ironicamente, um dia após a conclusão deste trabalho, Johan Cruyff deixou-nos… Eternizar-se-á na nossa memória pelos golos, nos passes entusiasmantes, pelas fintas históricas, pelos momentos de genialidade e pelas suas ideias. Exalta-se a lenda nos vídeos, imagens e palavras, porém, o que verdadeiramente imortaliza Cruyff e os seus mentores, é o legado deixado no próprio jogo, que se transformou em cultura e que hoje prevalece nas melhores equipas e nos melhores jogadores. Perante o tema que aqui abordamos, Cruyff insistia… “o jogador mais veloz não é o que corre mais rápido, mas sim o que primeiro resolve o problema“.

“Respeito todas as perspectivas, mas a intensidade que procuro e entendo para as minhas equipas é a da eficiência e eficácia em função dos critérios de desempenho que preconizo de acordo com a modelação que pretendo.”

(Carvalhal, 2011)

 

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Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 2941 artigos
Creator of the "Lateral Esquerdo", is also a teacher at the University Stadium in Lisbon. Soccer coach, having conquered several national titles in Portugal. Experience as soccer coordinator, and lecturer at various Sports Universities. Author of the book "Build a champion team" from the publisher PrimeBooks.

3 Comentários

  1. Como seguidor do trabalho do Ricardo Ferreira, reconheço que é de facto das pessoas a pensar melhor e em maior profundidade o futebol em Portugal. Uma referência em construção, daquelas que, quando a maioria das pessoas a entender, já só verá como é grande demais. Este artigo é apenas a ponta de um icebergue 🙂

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