A janela de oportunidade e a pressão para evoluir; Abel Ferreira e Jorge Jesus

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Não foi um jogo perfeito, mas coletivamente estivemos muito fortes e anulámos os pontos mais fortes do Sporting. Ao contrário do meu colega de profissão, eu conhecia muito bem esta equipa. Conheço muito bem este treinador, fui treinado por ele.

Abel Ferreira

O SC Braga foi, ontem à noite, vencer ao Estádio de Alvalade, numa partida que gera uma série de tópicos de reflexão sobre o trabalho das equipas, a evolução dos treinadores e a conjugação de estados mentais (de treinadores e jogadores) na materialização de um jogo.

As palavras de Abel Ferreira sublinham uma situação que nos é óbvia. Impossível não perceber que todos os treinadores da Liga NOS conhecem, como a palma da mão, aquele que é o trabalho de Jorge Jesus. O treinador do Sporting marcou referência nos últimos anos desta competição e ajudou a mudar a forma de abordar o jogo. Não tendo os melhores jogadores, expõe-se ao aproveitamento das suas fragilidades.

Dizia Jesus que uma equipa não muda em três ou quatro dias. Verdade. Mas terá o treinador do Sporting ignorado que, não havendo uma mudança de essência do que é uma equipa, poderão existir adaptações que, no imediato, resultem em aparentes modificações de fundo. O Braga continua a ter as qualidades e os problemas que tinha há duas semanas. Mas depois de ter sido eliminado da Taça de Portugal e de ter mudado de treinador, bebeu a oportunidade de ir a Alvalade mostrar que pode ser outra coisa.

Mostrou, curiosamente, que pode ser uma equipa muito mais próxima daquilo que Jorge Simão vem idealizando no Paços e no Desportivo de Chaves do que poderíamos acreditar. Abel Ferreira teve o condão de demonstrar esta possibilidade. Retirando os pontas-de-lança mais fixos da equipa e lançando uma frente de ataque mais móvel, para criar algum caos na transição. Ao mesmo tempo, defendendo Xeka e Vukcevic que se desposicionaram muito menos e não tiveram que se expôr à qualidade individual do adversário.

É perante este tipo de desafios que os treinadores evoluem. Jorge Jesus está exposto a uma crise  (de resultados, de confiança, de talento) e terá que saber evoluir com as condicionantes que tem. A equipa continua a criar oportunidades, mas não cria os desequilíbrios suficientes para vergar os adversários. Não cria temor. E a filosofia de JJ precisa desse lado temerário para se impor jogo após jogo.

Abel Ferreira tinha uma pequena janela de oportunidade para se fazer notar como treinador. Aproveitou-a e não ficará, agora, exposto à necessidade de lidar com a gestão do plantel em jogos em que a responsabilidade da equipa será completamente diferente. A sua prova dos nove ficará guardada para quando, finalmente, aceitar um convite para liderar uma equipa da Primeira Liga.

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Sobre Luís Cristóvão 103 artigos
Analista de Futebol. Autor do Podcast Linha Lateral. Comentador no Eurosport Portugal.

9 Comentários

  1. A abordagem do jogo por parte do Abel foi muita boa. A colocação de Rui Fonte e o Wilson no corredor central anularam por completo a primeira fase de construção do Sporting. O sporting quase nunca conseguiu quebrar linhas, lateralizando sucessivamente o jogo. Depois a incorporação do Alan permitiu que a equipa respirasse com bola. Quando este perdeu força, equilibrou com o wilson na direita e colocou uma referência na frente. Tiba também entrou muito bem no jogo. O trabalho do Abel já é notória há algum tempo. Tenho alguns dúvidas que consegui ser um treinador que assuma o jogo mas não deve demorar muito até podermos verificar isso.

    • Percebo o que dizes do um jogo e tal. Mas por acaso na 5a ou 6a f passada antes do Simao ser contratado.. quem trabalhou com ele no SCP mandou.me uma msg a dizer “se lhe dao a oportunidade só pára no topo” e alguém q é mt critico e q conhece mts mts mts Tr. Achei curioso tamanha demonstração de apreço pela competência do Abel. Vindo de quem veio… por alguma coisa forte será.

      • Será que evoluir para o FC Vizela (2º liga sem treinador) poderá ser um salto para o Abel ? ou Ficar no SC Braga B será melhor para o seu futuro ?

  2. Concordo que possa ter qualidade, mas acho que o Sporting CP criou boas ocasiões para marcar pelo menos 2 golos e o trabalho do Abel não iria ser reconhecido.

  3. Ao contrário do que se repete por aí porque o Sporting levou na pá, o Braga fez um bom jogo, dentro das qualidades que possui.

    Controlaram muito bem o Sporting, raramente deixando ligar a equipa e construir com qualidade. E o Sporting tem muitas soluções colectivas, é complicado abafá-los e mantê-los longe da área ofensiva.

    Com menos bola, obviamente, ainda assim registo a quantidade de vezes que o Braga entrou na área do Sporting com chances reais de criar muito perigo.

    Para finalizar a minha boa opinião sobre o Braga, lembro que mesmo nos últimos minutos de jogo se mantiveram altos e roubaram uma série de bolas. Acabaram o jogo a falhar duas oportunidades na cara do Patrício.

    Apreciei também a instabilidade que criaram no processo defensivo do Sporting com o aproveitamento da profundidade e das costas do meio-campo e defesa alheia. Pareceu trabalhado pelo treinador. É raro ver uma equipa do JJ levar bolas consecutivas nas costas.

    Neste momento, o Sporting cria menos oportunidades do que os rivais e, pior que isso, concretiza bem menos do que FCP e Benfica. Mesmo com melhor modelo de jogo.

    Sinal evidente da fraca qualidade individual do Sporting quando comparado com os outros dois. Só William e Gelson entrariam de caras no FCP ou Benfica. E não, o bom Ruiz nunca foi e nunca será do nível de Gaitán, Rafa, Brahimi, Cervi.

    • Sim, comparado com FCP e Benfica, o Sporting tem um plantel com menos qualidade no onze e, sobretudo, com poucas opções para rodar.

      Falo da baliza (em relação ao Benfica), dos laterais de baixa qualidade, dos substitutos para o meio-campo defensivo e ofensivo e para o ataque.

      Mesmo no meio-campo defensivo, uma das zonas mais fortes do plantel, o Adrien é considerada uma das estrelas inigualáveis do Sporting – e no FCP, se calhar, nem titular seria.

      Se o onze pode chegar para alguma coisa, não nos podemos esquecer que na época passada o Sporting só jogou a Europa a partir de Fevereiro, digamos assim. Esta temporada tem outras exigências.

      Para além disso, o Sporting parece não ter um perfil de jogador bem definido, ou seja, contrata sem uma estratégia clara, o que faz com que as suas contratações estejam nas mãos de treinadores e empresários.

  4. É verdade que o Sporting não tem tanta qualidade individual como o Benfica e o Porto, mas não tem um onze assim tão diferente do que tinha no ano passado. Saiu o João Mário e entrou o Gélson, claramente o melhor jogador da equipa nesta fase, e saiu o Slimani e entrou o Bas Dost, que não é nenhum manco. Além disso, entraram para o plantel 10 jogadores, entre os quais o Joel Campbell e o Markovic. Não há razões em termos de qualidade individual que expliquem a eliminação do Sporting pelo Légia, nem terem feito até ao momento os mesmo pontos que o Vitória, e menos que o Braga, no campeonato.

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