Olha o Vasco, a … da tua tia!

Deparei-me recentemente com um video muito giro. Muito giro se o tivesse assistido sem som.

Uma criança a fazer umas macacadas com a bola, desmonta o adversário com aquela traquinice própria dos miúdos desta idade. Isto, depois de nos últimos dias ter seguido diversos jogos bem aborrecidos, onde fui incapaz de encontrar alguém que faça diferente, que faça melhor, que acrescente. Encontrar um video de um miúdo de 7 ou 8 anos a tomar decisões por si, sem medo de arriscar, divertindo-se com a bola é quase uma benção.

Porém, o video tem som. E muito rapidamente se consegue perceber porque tantos desistem, porque tantos ficam formatados, porque tantos ficam iguais. Porque tantos não se divertem.

No futebol jovem, o adulto é o empecilho maior ao desenvolvimento. Por isso a importância do futebol de rua, longe da coarctação daqueles que para além de não deixarem os miúdos descobrir, ainda os guiam de forma errada porque de futebol pouco ou nada entenderão. Na linha cruza-se logo lá para cima, e não há cá dribles nem macacadas. “Keep it simple” ao mui nobre estilo britânico de um jogo do antigamente.

Um miúdo tem a bola no pé cinco segundos e ouve cinco feedbacks da bancada que o mandam soltá-la. Um “joga joga” e quatro “olha o Vasco” todos por diferentes pessoas.

Hoje para se chegar lá acima, não importa só ter habilidade. Crianças sem uma personalidade bem vincada desde bem cedo, que permita que consigam ignorar especialistas de bancada que destroem o jogo de crianças, terão muito menos possibilidades. Porque vão crescer no jogo, a serem guiados, sem compreender. E ainda pior, mal guiados!

Nos dias de hoje, o jogo de crianças não é para as crianças. Mas antes para os adultos que cá de cima procuram manejar as marionetas. O tal espectáculo circense onde crianças, quais anões são expostas a um ambiente sem qualquer tipo de diversão para no fim do dia os adultos voltarem para casa felizes ou tristes. Dependendo do resultado final e do número de golos do seu educando em cada partida.

Com a queda financeira dos clubes, é para estes impossível terem projectos desportivos sem a contribuição dos encarregados de educação, e é essa forma de subsistência que hoje é um dos maiores entraves ao desenvolvimento dos jovens jogadores. Não há como afastar da arena quem destrói a diversão das crianças. E infelizmente de “futebol e educação todos entendemos e ninguém nos ensina nada“, para que se possa verificar abertura a uma reeducação / formação dos agentes.

Sobre Paolo Maldini 3777 artigos
Pedro Bouças - Licenciado em Educação Física e Desporto, Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, bem como participado em 2 edições da Liga dos Campeões em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, Cursos de Treinador e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã", e Co-autor do livro "O Efeito Lage", ambos da Editora PrimeBooks Analista de futebol no Canal 11 e no Jornal Record.

9 Comentários

  1. o importante actualmente é:
    – dividir o campo em 10 quadrados, definir as zonas que fazem, quem sair leva um berro ou uma apitadela (muito usual nos nossos colegas).

    – dois toques na bola leva um berro e uma apitadela

    – falha um golo um berro e uma apitadela

    – falha um passe, um berro uma apitadela

    – resumindo, o treino é feito de constantes paragens, de constantes apitadelas (muito falam com o apito), de constantes berros

    As crianças tem que obedecer a toda a hora a demasiadas regras e pior, estão sempre a alterar as regras, professores diferentes, pais, treinadores diferentes etc. o importante é estar completamente cheio de informação….

    Divertir, isso nunca, jamais!!! Não é isso que vão fazer no futuro, divertirem-se. Mas que continuem assim, a área da diversão farta-se de ganhar dinheiro, quando eles forem mais velhos!!!!

    Cada vez mais esta população exige das crianças eles serem adultos – é motivo de orgulho de um pai, dizer que o meu filho é tão adulto…..!!!!!

    • E quando chegar um gajo que deixa os miudos jogarem e se divertirem é completamente abafado por este mar de estupidez e ignoracia…Meus amigos isto vai levar anos..

      • Eu também acho que não. Acho que pelo timming do comentário deve ser o primeiro a felicitar o marcador. Mas lá está como as bocas da bancada se devem refrear… O Vasco está em modo espectador!

  2. O meu miúdo tem 6 anos e já á dois que joga futebol, no 1º ano fui um pai que mandava os “bitaites” lá para o campo, mas tal como os miúdos evoluem durante a época os pais também pode evoluir, e foi o que aconteceu, pois percebi que para além de o miúdo muitas vezes ficar nervoso e sem saber ao certo o que fazer, notei que não estava a jogar concentrado nem jogava com alegria, pois parecia um robot à espera de ordens.

    Este 2º ano o que lhe digo antes dos jogos é… “DIVERTE-TE” e no final pergunto-lhe “DIVERTISTE-TE?”…

    • Perfeito! Sobretudo nas idades mais jovens… temos sempre o coração nas mãos com os nossos meninos e queremos mesmo é ajudá-los a sairem-se bem…mas mesmo sem má intenção… só estragamos…

  3. Vejo exatamente o mesmo no hóquei patins jogado pelo meu filho. No meu caso há ainda os “treinadores de tabela” que se encostam à dita a dar comandos ao filho. Para não falar no facto de tudo o que o treinador faz estar errado, e de “o meu filho até esteve bem mas o do “Silva”…”
    Infelizmente confunde-se ser cliente de uma escola com ser professor! Abraços

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