Exclusivo Paulo Fonseca. Processo de treino e modelo de jogo, a quem “só ganhar não satisfaz”.

Paulo Fonseca é hoje um dos melhores treinadores a nível Europeu. Independentemente de estar ainda numa fase em que continua a subir degraus, tem tido um impacto tremendo no jogo, não somente pelos resultados de excelência (depois do troféu conquistado em Braga, a quebra da hegemonia do Dinamo de Kiev, com a conquista do triplete na Ucrânia. São quatro troféus nacionais num período de 14 meses), mas pela forma atractiva como as suas equipas jogam. Trabalha para aproximar as suas equipas do sucesso. Tem o sucesso do resultado e ainda promove as suas individualidades por um jogar que as valoriza.

Mas o que torna Paulo Fonseca, um treinador de excelência no contexto do futebol Europeu e Mundial?

Há sempre duas variáveis que são determinantes para que se possa aproximar do sucesso a equipa que se orienta.

Modelo de Jogo e Processo de treino.

Um modelo de jogo que potencie ao máximo as individualidades, assente num jogar que promova o sucesso. E um processo de treino orientado para que na operacionalização se consiga chegar ao que se idealiza na competição.

Sobre o tipo de jogo que preconiza, é muito claro:

A minha paixão pelo jogo é enorme e eu jamais abdicarei de determinados princípios que caracterizam as minhas equipas. E o Shakhtar não foge à regra. Foi com uma filosofia de jogo muito própria que aqui cheguei e confesso que cada vez mais acredito nela. Jamais serei um resultadista. Só ganhar não me satisfaz. Quero ter sempre o domínio com posse, quero jogar sempre perto da baliza adversaria e defender longe da nossa. Nós treinadores somos contratados para ganhar, mas também temos a obrigação de proporcionar bons espectáculos que atraiam as pessoas aos estádios. Não me estou a ver, e quem me conhece sabe que estou a falar a verdade, ter as minhas equipas a defender permanentemente em bloco baixo, a dar a iniciativa ao adversário e passar a maior parte tempo sem bola. Esse não é o jogo que eu amo.

As variáveis / dificuldades na hora de criar o seu Modelo de Jogo:

Este ano foi um ano muito particular. Foi a nossa primeira aventura no estrangeiro. Viemos substituir um treinador que estava no clube á 12 anos e com uma ideia de jogo completamente oposta á nossa. Muitos destes jogadores só tinham trabalhado com Luscescu. Viemos para um clube deslocado da sua cidade e por isso atuaríamos sempre fora de casa.  Tudo isto foi tido em conta na hora de pensar o nosso modelo de jogar e fizemos a nós próprios muitas vezes uma pergunta muito simples: será que vamos conseguir mudar algo que está tão sedimentado? A resposta foi sempre a mesma: jamais conseguiremos trabalhar sobre princípios nos quais não acreditamos. Foi preciso mudar tudo, mas criamos um modelo de jogo fundamentado naquilo que acreditamos. E jamais mudaremos seja em que país for.  Somos contratados para conferir uma identidade própria ás equipas e elas são fundamentadas nas nossas ideias. Por isso trouxe uma ideia e os jogadores aceitaram-na porque lhes provamos que era o ideal para a equipa. Agora também já afirmei que não existem duas equipas iguais e nós temos de perceber que as características dos jogadores nos levam a particularidades que não podemos ignorar. Esta equipa do Shakhtar é um grande exemplo disso. Dentro da nossa ideia de jogo, estes jogadores acrescentaram traços claramente que beneficiam o nosso modelo de jogo. E isto tudo foi evoluindo á medida que fomos conhecendo melhor os jogadores. Temos de ter a sensibilidade para perceber isso.  E hoje olho para trás e foi impressionante o que conseguimos conquistar neste contexto de mudança. Ganhar o campeonato, a taça e a supertaça passado um ano de termos chegado á Ukrania é claramente um registo único.

Sobre possíveis alterações de uma época cheia de sucessos para um segundo ano…

A nossa ideia de jogo está tão enraizada que não sinto a necessidade de fazer grandes alterações na nossa forma de jogar. Também confesso que pelas características dos jogadores não é fácil mudar. Temos de optimizar. Existe sempre espaço para evoluir. E existem as características especificas das diversas competições. Por exemplo, aqui no campeonato ucraniano o contexto de jogo é muito difícil. Actuar nos últimos trinta metros do campo com as equipas a defenderem com 11 jogadores á entrada da área obriga-nos a sermos quase perfeitos. São questões de detalhe. E a procura constante de melhorar esses detalhes é uma luta permanente. Nas competições europeias o contexto muda, mas a exigência é enorme e obriga-nos a mudar o espaço de actuação. Esta mudança relativamente ao nosso registo habitual tem que ser bem trabalhada e sustentada.

Processo de Treino

Sobre o processo de treino, a metodologia que promove o jogar no trabalho semanal. Só assim, operacionalizando, se consegue chegar ao que se idealiza. E com sucesso!

Cerca de 80 por cento da nossa bateria de exercícios foi criada por nós. A condição única na elaboração do exercício é muito simples, apenas queremos treinar o nosso jogo. Treinar o que queremos produzir no jogo. Agora existem muitos outros fatores que temos de ter em consideração. Só para vos dar um exemplo, existem exercícios que funcionam muito bem numas equipas e em outras eu tenho que os abandonar ou alterar. Tem a ver com a singularidade dos grupos de trabalho. E é bom que nós treinadores percebamos que jamais teremos equipas exatamente iguais. Esta é uma leitura que o treinador está obrigado a fazer.

Aprendizagem – Treino – Jogo!

Trabalhar para retirar ao máximo o caos e aproximar do sucesso é isto:

Todas as citações de Paulo Fonseca foram feitas em exclusivo para o Lateral Esquerdo. Fica aqui um forte agradecimento por permitir-nos a todos aprender um pouco mais!

Sim, nós trabalhamos todas aquelas situações antes do encontro com o Dínamo. Ainda bem que conseguimos colocar em prática o que tínhamos treinado. No jogo do Shakhtar nada acontece por acaso, todos os jogadores sabem como se comportar nas jogadas. E, além disso, é evidente que nós nos preparamos cuidadosamente para cada adversário em concreto.

Ferreyra ao site do Shakhtar, pós vitória na Supertaça

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3011 artigos

Criador do “Lateral Esquerdo”, tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto – Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino.

Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Autor do livro “Construir uma Equipa Campeã” da PrimeBooks.

Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

10 Comentários

  1. O adepto comum, e alguns comentadores dos nossos media, se observasse apenas o primeiro minuto do primeiro vídeo comentaria apenas que não houve pogressão e inclusivé que atrasaram duas vezes a bola ao guarda-redes.

  2. Excelente a proposta de jogo do Paulo Fonseca. Imagino que os jogadores devam estar hiper-motivados por alguém que potencia ao máximo aquilo que eles podem dar ao jogo. Espaço para qualidade e inteligência. O Josué ainda deve suspirar por ele durante vários treinos…

    O passe do Pyatov ao minuto 00.59, quando todos esperavam um charuto, desmontou meia equipa. Os 6’s do nosso campeonato que ponham os olhinhos.

  3. “Viemos para um clube deslocado da sua cidade e por isso atuaríamos sempre fora de casa. Tudo isto foi tido em conta na hora de pensar o nosso modelo de jogar”. Já falei com outras pessoas sobre estas frases e mantenho a dúvida. De que forma é que o facto de se jogar sempre fora ou em casa pode influenciar um modelo de jogo? Sei que os adeptos (neste caso, a ausência deles) podem ser um contributo importante, mas não vejo como podem influenciar algo relativo à forma de jogar.

    • O que ele se refere é à questão do Shaktar não poder jogar em sua casa por causa da Guerra da Ucrânia.

      Assim de repente parece-me importante este aspecto.

      • Sim, eu sei a razão para ele ter dito isso. Jogam sempre longe da sua cidade. Mas como é que isso influencia a forma de jogar deles? Essa é que é a questão.

    • Jogar em casa e fora tem bastantes diferenças e sabê-lo e integrá-lo no modelo de jogo é muito importante. Normalmente, as equipas que jogam em casa, muitas vezes empurradas pelos adeptos, estão mais avançadas no campo, tentam ter a iniciativa de jogo (uma vez que é “obrigatório” ganhar em casa), se não têm condição física para aguentar um jogo de domínio diminuem o ritmo do jogo e a velocidade de circulação de bola. Ora daí ele ter apostado numa equipa tão subida, por exemplo. O facto de o Shakhtar encostar todas as equipas com que joga ao fim do campo, faz com que a equipa que joga em casa se “enerve” (levar cheirete em casa) e cometa erros, que vão aumentando com o dilatar do marcador. Quero muito ver o Shakhtar a jogar na champions

    • Arrigo é o pai de quase tudo o que é bem feito defensivamente! mas n se pode ignorar a mudança da regra do fdj… que dificultou mt estes novos modelos!

      • Concordo mas o processo é o mesmo, o treinamento é o mesmo!! é só trazer pra realidade do fdj de hoje, acrescentar posse de bola com triângulações e bingo a maioria dos melhores times jogam assim… E não é uma crítica é uma constatação!! 😉

  4. Bom trabalho e evolução. Mas é Ucrânia. Finalmente poder ver o que fará na Champions. Dúvidas aí. Talvez mais espaços para desequilibrar em velocidade, mas terá que subir ritmo coletivo das acções. É preciso mais “provocação”, agressividade para partir e romper e agregar atrás.

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