O Mundial de Pogba

O jogo fala por si, por muito que se fale, afirmou Zlatan.

A afirmação de Zlatan remeteu para um post recente em que se abordou as modas .

No pós Suécia x Suiça, um periodista escrevia:

O Lindelof é um defesa fabuloso! Imaginem o meu choque! É como se muitos de nós nunca o tivéssemos visto jogar e tivéssemos feito um rápido julgamento com base em uma ou outra performance

Pogba enfrentou a crítica de demasiados milhões investidos na sua contratação, ignorando-se que o preço que custou está muito relacionado com o nome da equipa compradora. United, como City nunca farão bons negócios. Todos os jogadores que contratarem será sempre bastante acima do valor real, porque quem transfere sabe do poderio económico dos adversários. Só na temporada passada no City, Laporte custou 66M, Mendy 59 e Kyle Walker quase 56! Honestamente, qualquer uma das três me parece bastante mais escandalosa que o preço pago por Pogba. Mas, é o preço que o City tem de pagar, por ser o City!

O médio francês é um dos melhores e mais valiosos do mundo se integrado num jogo que potencie as suas qualidades. E sempre foi.

Não tem a tomada de decisão ou a criatividade dos melhores, obviamente. Se eu pudesse escolher o meu onze entre todos os melhores do mundo, não encontraria espaço para Pogba. Desenharia uma equipa com 11 jogadores do perfil e próximo do nível de Modric (sim, não basta o perfil. Porque se há perfil, mas não há nível… pouco ajudará a vencer), e não precisaria de ter alguém com a capacidade para comer metros, vencer duelos, ocupar espaços e lançar as transições ofensivas como Pogba.

Mas porque o médio do United não tem o perfil dos jogadores que considero mais importantes num jogo de uma nova era (velha (?!), com o desaparecimento do Barcelona…), onde a inteligência e criatividade abundam, tal não torna Pogba um não óptimo jogador.

Tem uma qualidade técnica incrível e num modelo como o de Deschamps, Pogba seria muito provavelmente sempre mais importante que quase qualquer outro jogador que eu escolhesse para uma equipa minha, se a escolha fosse ilimitada.

No texto “o futebol que vence nos dias de hoje” (aqui) referindo-me em específico ao Mundial e às características de uma prova a eliminar afirmei:

Não é o futebol do futuro, mas é o futebol que vence nos dias de hoje. E vence não por acaso, mas porque assenta numa competência total nos momentos sem bola e no investir com qualidade ofensivamente, nos segundos onde se marcam mais golos na actualidade

E Pogba como Mbappé tem e teve um papel absolutamente decisivo na forma como Deschamps preparou a França para ser campeã mundial. Jogando da forma que idealizou, provavelmente nenhum outro médio do futebol mundial teria um papel tão importante quanto o que desempenhou o médio do Manchester.

É óbvio que jogadores como Iniesta têm qualidades que lhe permitem ser fabulosos em qualquer modelo, e que devem ser valorizados bem acima de outros que encaixam apenas num determinado estilo de jogo. É impensável imaginar Pogba no Barcelona de Pep, mas não é impensável imaginar Iniesta seja onde for!

Mas acredite que é melhor jogador um Pogba que é fabuloso num determinado tipo de jogo, do que alguém com um perfil mais técnico e criativo mas cujo nível é baixo. Mesmo que as modas desdenhem um tipo decisivo num Campeonato do Mundo, e elevem outros que nem numa realidade baixa se conseguem impor…

 

Surpreendido com o rendimento de Pogba, só quem se surpreenderá com o rendimento de Neymar no futuro. Eu não quereria que os meus filhos desenhassem os penteados que qualquer um deles se dá ao trabalho de apresentar, mas isso, por muito que seja de difícil compreensão, não lhes retira qualidade lá dentro…

Paolo Maldini
Sobre Paolo Maldini 3420 artigos
Criador do "Lateral Esquerdo", tendo sido como Treinador Principal, Campeão Nacional Português (2x), vencedor da Taça de Portugal (2x), e da Supertaça de Futebol Feminino, em três anos de futebol feminino. Treinador vencedor do Galardão de Mérito José Maria Pedroto - Treinador do ano para a ANTF (Associação Nacional de Treinadores de Futebol), e nomeado para as Quinas de Ouro (Prémio da Federação Portuguesa de Futebol), como melhor Treinador português no Futebol Feminino. Experiência como Professor de Futebol no Estádio Universitário de Lisboa, palestrante em diversas Universidades de Desporto, e entidades creditadas pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ). Autor do livro "Construir uma Equipa Campeã" da PrimeBooks. Analista de futebol na TV e no Jornal Record.

6 Comentários

  1. Gostava muito de ver Pogba a jogar na verdadeira posição dele.

    Até lá, sou daqueles que não gosta dele 😉

    Um abraço

  2. Esta é a diferença entre quem acredita numa ideia de forma radical, rejeitando e menosprezando todas as outras, e quem acredita numa ideia mas consegue entender e desconstruir as outras.

    Os segundos irão sempre ser mais bem sucedidos…

  3. Vocês acham que o Mourinho tem explorado bem as suas qualidades?
    O Pogba que vi na Juventus não me parece que seja do nível deste que está no United

  4. Nos 2 últimos jogos da França, vi,
    Dar a iniciativa ao adversário.
    Pogba a procurar ataques rápidos e contra ataques.
    Giroud a dar profundidade e a criar espaço.
    Griezmann e Mbappé a usarem e a criarem mais espaço.

    Pareceu-me que seria parecido com isto que Portugal por vezes parecia querer fazer mas com uma série de equívocos e com menos qualidade.
    Equívocos desde logo do próprio selecionador que tinha jogadores para outra abordagem.

  5. Eu não quero saber: depois de Modric e Hazard, Pogba foi o jogador que me encheu mais as medidas no pouco mundial que fui vendo! E duas notas:
    – Tal e qual como o texto refere, temos tendência a não achar fantástico o torneio que fez porque já temos as expectativas muito altas. Mas ver a forma como se deu ao jogo, onde (nem sempre decidindo com a melhor qualidade e criatividade) mas usando todos os seus atributos em prol da equipa é fabuloso.

    – Tal como refere o Kike e usando a comparação do texto, eu também prefiro Iniesta a Pogba, agora não perceber o que ele dá, o que ele aporta à equipa a jogar ao nível que jogou, provavelmente é ignorar também o bom. Porque apreciar o que é diferente do meu preferido, não tem que ser mau…

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