O fabuloso destino do Vitória de Luís Castro na recepção ao Sporting

Numa noite fantástica em Guimarães, o Vitória impôs a primeira derrota da era Keizer com uma exibição soberba em todos os momentos do jogo. Após o jogo, Luís Castro deu uma brilhante conferência de imprensa onde analisou o jogo e referiu como preparou estrategicamente a sua equipa para vencer a equipa leonina. Sim, um dos erros muito comuns e que tantas vezes prejudica a própria imagem de tantos treinadores de eleição, é a forma como ficam conotados aos “maluquinhos” do joga bonito sem resultados. Quando tal, não é causa efeito.

…acima de tudo as instituições querem é ganhar e nós temos é de dar vitórias

Luís Castro, em conversa com o Pedro Bouças, Lateral Esquerdo em 2017

Conforme referido previamente aqui, vencer um grande envolve:

  1. Modelo de Jogo. Um modelo bem estruturado. Pensado e que consiga garantir mínimos de qualidade nos posicionamentos em cada momento do jogo;

  2. Estratégia. Adaptações obrigatórias mesmo mantendo o modelo, em função das características totalmente diferentes do jogo. Diferentes porque perante adversários substancialmente melhor apetrechados;

  3. “Sorte” expressa numa eficácia que terá de ser invulgar e bastante superior à do adversário. “Sorte” porque consegui-lo nunca é fácil, e muito menos quando na frente a finalizar estão jogadores com menos capacidade que os outros, que para além de melhores ainda terão mais bolas de “golo”.

Com a curiosidade, de com uma exibição e estratégia tão perfeita, não teve o Vitória qualquer sorte, uma vez que terá sido até bastante ineficaz nos lances de finalização!

Defensivamente, o Vitória posicionou-se num 4-5-1/4-1-4-1 com um bloco médio/alto, muito compacto e a fechar a entrada pelo corredor central ao Sporting. Como o treinador dos vimaranenses referiu no pós-jogo, a sua linha defensiva actuou sempre alta e muito próxima à linha média, o que dificultava a recepção e o enquadramento com a baliza de quem recebia a bola entre-linhas por parte do Sporting. Além disto, a equipa de Guimarães optou por não pressionar a construção leonina com o intuito de permanecer mais baixo e Guedes ter tempo para pressionar de frente a condução de Mathieu tal como referiu o treinador português na conferência de imprensa. Na 2ª parte, o Vitória foi forçado a baixar o seu bloco, mas manteve as linhas próximas e a controlar o jogo exterior do Sporting com a sua habitual linha de 6.

Video com som! Ouvir explicação de Luís Castro enquanto acontece o que referiu:

 

Após recuperação, o Vitória conseguiu ligar de forma brilhante cada transição ofensiva e aproveitar cada espaço vazio liberto pelo Sporting, beneficiando do espaço deixado nos corredores laterais na sua transição defensiva. Além disto, a equipa foi capaz de sair da pressão com critério ligando com o corredor contrário com frequência. O próprio golo do Vitória surgiria de uma bola parada que procedeu de uma transição ofensiva brilhante do Vitória em que a equipa encontra o espaço vazio, sai da pressão e liga com o corredor contrário!

Video com som! Ouvir explicação de Luís Castro enquanto acontece o que referiu:

 

Com bola, o Vitória protagonizou uma das melhores exibições da temporada. Desde trás a criar desequilíbrios, os comandados de Luís Castro foram capazes de provocar desequilíbrios por dentro e por fora, mas principalmente foram capazes de chegar juntos ao último terço e em alguns momentos, manterem-se em posse no seu meio campo ofensivo. Estrategicamente, o Vitória procurou retirar sempre a bola da zona de pressão porque sabia que o Sporting concentrava muitos jogadores na zona da bola. Para aproveitar este espaço no lado contrário da bola, o Vitória procurou atrair o adversário a um corredor e explorar o outro e em algumas destas situações, quase chegou ao golo que poderia ter dilatado a vantagem!

 

Na sua transição defensiva, Luís Castro preparou a sua equipa para condicionar a saída do Sporting pelo corredor central em contra-ataque/ataque rápido com Wakaso a encostar homem-homem em Bruno Fernandes e um dos centrais em Dost. Além disto, a equipa beneficiou de chegar ao último terço junta que permitiu uma reacção forte na zona da perda e em algumas situações, a recuperação da bola.

 

Numa exibição incrível do emblema vitoriano, o que mais saltou à vista foi o dedo de Luís Castro e da sua equipa técnica na forma, minuciosa, como prepararam a equipa para todos os momentos do jogo e deste jogo em específico, atendendo às características singulares do jogar leonino e dos seus jogadores mais capazes de o influenciar. Uma vez mais, um dos melhores treinadores portugueses da actualidade, demonstra o quão é importante o lado estratégico do jogo aliado ao seu modelo encantador. Numa era de informação e estratégia, apenas num nível extremamente baixo onde o jogo não é profissão, o treinador pode ser cego, surdo e mudo, se o caminho é o do triunfo. E mesmo ai, poucos assim vencerão.

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Apaixonado pelo jogo e pela análise. É o pormenor que me move na procura do conhecimento. Da análise ao jogo, passando pelo treino, o Futebol é a minha grande paixão.

4 Comentários

  1. O que poderia ter feito o Sporting para anular essa estrategia do Guimaraes ? Parece-me que um 3-4-3 com 2 medios ofensivos seria a melhor forma. 3 atras a garantir equilibro apos a perda da bola e para uma construcao de jogo facilitada. Uma linha de 4 medios para responder a linha media do guimaraes, com 2 a darem largura e 2 outros na zona central do terreno. Na frente (espaco entre a linha media-defensiva) 2 medios ofensivos para baralhar o Wakaso e assim ter 2 jogadores de costas para a linha media e com Dost na frente.

    • Era isso que eu teria feito, logo ao intervalo, trocando Jovane por Petrovic (e, eventualmente, Diaby por Raphinha). A ideia seria ter

      Renan

      Petrovic – André Pinto – Mathieu
      Gaspar – Gudelj – M. Luís – Acuna
      Diaby / Raphinha – Dost – Bruno Fernandes

      Objetivos:
      1. Passar a ter dois centrais com capacidade de sair a jogar, quer em passe, quer em condução;
      2. Passar a ter dois alas mais dentro, com capacidade para receber no pé e ir embora em ruturas.

      Largura para os laterais (que, em rigor, são os calcanhares de aquiles da equipa, servem para largura e pouco mais) e critério e capacidade no meio (aqui, ainda tenho dúvidas que o Gudelj seja o que o Sporting precisa – muito melhor que o Batta, mas ainda assim não sei se é o suficiente).

      Era o que eu teria feito. Quer dizer, acho eu – às tantas o Keizer também pensou nisto, mas não estando nada trabalhado… Isto não é FM…

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