Guardiola e a pergunta esperada!

Agora fala-se de recordes e do lindo que é o sucesso de treinadores, de jogadores, e de todo o staff de um clube, mas aqueles que hoje ganham (e perdem) percorreram um caminho… o deles, melhor ou pior, com altos e baixos, mas o fundamental é que sintam que foi o caminho que eles escolheram e aquele que quiseram percorrer, independentemente do resultado final, mas sempre pensando que esse seria o percurso que os aproximava do triunfo e do crescimento.

Ora, há uns meses Manchester city estava a 7 pontos do Primeiro classificado (Liverpool), condenado a entregar o campeonato caso nada mudasse na forma como procuravam disputar o jogo. Nessa altura surgiu a inevitável e previsível pergunta, que nada mais é que o espelho duma sociedade superficial e com um pensamento que, de tão linear, reduz o potencial de transcendência que temos dentro de nós. Urge maior diversidade de perspectivas, para que haja mais alternativas e assim espaço para quem valoriza mais o que é feito do que apenas e só o resultado final.


Vencer é o raro, não o comum (falo de vencer títulos). Ser o melhor mais vezes do que aquelas em que não se é o melhor, é algo raríssimo (se é que existe… durante uma vida inteira). Portanto, o essencial é melhorar sempre, isso está ao alcance de todos, ao passo que vencer (no sentido de ser o Primeiro) está ao alcance duma minoria. Em centenas de equipas que integram todas as divisões do futebol Inglês, por exemplo, só uma vai ser “a melhor”. Portanto, vencer é para UMA só, mas melhorar tem que ser para todas, e temos que encontrar motivos para melhorar tanto nas vitórias como nas derrotas (o caminho é tudo e tem de tudo).

Dito isto, vencer não pode ser um medidor da qualidade dos estilos, vencer (no máximo, se tudo correr bem) é o medidor da qualidade das equipas, dos seus jogadores e da forma como jogaram numa determinada época.

Vamos lá imaginar que toda a gente jogava segundo um só estilo e só existia um tipo de jogador, ainda assim só um ganharia. 20 equipas com um só estilo implicava (na mesma) ter 19 equipas a fracassar, e só uma a vencer. O fracasso desse estilo seria muito maior do que o triunfo (19 – 1, goleada das antigas).

A questão é: o que resta aos normais? No fundo, o que resta aos treinadores (humanos) que perdem mais títulos quando comparado com o número de títulos que ganham? (Ou seja todos os treinadores). Se todos queremos ganhar mas quase ninguém ganha, o que é que nos move?

Consideramos duas coisas fundamentais:

– a superação que se reflecte na procura de soluções para os problemas (do jogo e na capacidade de convencer, essencialmente) que geram aprendizagem e por isso desenvolvimento;

– as crenças (que se traduzem em princípios/valores que definem aquilo que nos guia) que são fruto das nossas experiências. As crenças vão-se aperfeiçoando desde que não deixem de orientar o processo de crescimento (da forma de jogar da equipa).

Estas são duas condições fundamentais e que devem ser à prova de bala (neste caso de derrotas ou de dificuldades), tal como Guardiola fala.

Melhorar implica uma mudança, mas melhorar não é mudar. Porque procurar soluções para aquilo que não fazemos bem não implica mudarmos aquilo que é o nosso estilo ou a nossa essência, é simplesmente corrigir erros. Mudar de crenças/de ideias/de filosofias (que no fundo são também muito de que nos caracteriza) é perder o rumo e assim sendo é deixar o processo entregue ao aleatório e à anarquia. Porque saltitar entre “crenças” é não ter crenças nenhumas, é perder sentido da nossa missão e é perder a capacidade de orientar o processo. Neste caso, o que nos moveria e segundo que perspectiva iríamos ver o jogo para procurar o porquê de ganharmos e porquê de perdermos?

A crença é o que nos mantém no caminho do desenvolvimento independentemente das dificuldades e dos obstáculos. A superação é aquilo que nos permite melhorar a cada momento do processo e assim aprender a melhor ultrapassar os obstáculos. Assim sendo ambas nos colocam mais perto de ganhar.

Sem crenças (algo que nos define e guia no jogo e na vida) e sem a vontade de nos superarmos seria uma questão de tempo até que tudo deixasse de fazer sentido, para nós e para quem nós orientamos.

A pergunta que deveríamos fazer a nós próprios em momentos difíceis não é aquela que foi feita ao Pep, deveria antes ser a seguinte: Como e em que é que eu, com as crenças que me definem e me dão uma tendência para resolver os problemas do jogo de uma determinada forma, posso CONTINUAR a melhorar a minha equipa e os meus jogadores?

a) Conferência de imprensa (pré-jogo) de Guardiola ao serviço do Manchester City FC – Premier League 2018/2019

João Baptista
Sobre João Baptista 15 artigos
A paixão por Futebol conduziu-o até à FCDEF (Universidade do Porto), onde o Professor Vítor Frade viria a ser uma grande influência na busca constante da essência do jogo e do treino. Com passagens por FC Porto B, FC Porto (Dragon Force), Valadares Gaia FC (feminino), AD Sanjoanense e EF Hernâni Gonçalves, desde 2016 que se encontra na China, de momento num projecto de formação ao serviço do Zhichun FC. A página/o blog "Bola na Árvore" são reflexões de quem vai à procura da essência do jogo, da formação, do treino e da vida que se manifesta no futebol... na busca incessante vai-se aprendendo.

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