Benfica, um Ferrari de duas velocidades

Caos. Uma palavra que pode ter vários significados. No dicionário, “desordem” e “confusão” são alguns do sinónimos, numa conotação que pode soar negativa. Já num tom mais enciclopédico, podemos ver uma estreita ligação à Teoria dos Sistemas. Desengane-se quem pense que isto é mais uma metáfora, qual rodeio, para tornar lírico um mero artigo de opinião. De facto, é necessário entender algumas das características destes sistemas para se desmistificar aquilo que todos procuram saber desde meados do reinado de Lage até aos dias de Jesus: qual é, de facto, o grande problema do Benfica?

O mistério que paira sobre o Benfica, desde os tempos de Bruno Lage, parece estar por desvendar. No meio de todas as razões que se podem apontar numa simples conversa de café, certamente que o fator psicológico e a dita “estrutura” são dois deles, mas a raíz poderá estar precisamente no relvado. Recentemente, no Canal 11, Nuno Presume apontou “a procura excessiva do corredor central” como um dos problemas do Benfica. A crítica chamou-me a atenção, pois raramente se identificou este “vício” em praça pública como sendo um defeito das águias.

Desde que Bruno Lage assumiu o comando, que o Benfica passou a sobre-explorar o jogo interior, talvez levado pelas tendências contemporâneas do mundo do futebol. Quando o técnico setubalense tomou as rédeas da equipa, talvez a maior chave para o sucesso tenha sido a introdução de João Félix nas entrelinhas do corredor central, contrastando com as combinações exteriores do 4-3-3 que atirou Rui Vitória para fora da Luz – quem não se lembra dos “três anões” Grimaldo, Zivkovic e Cervi a desequilibrarem pela asa esquerda? Nessa altura, o Benfica passou a jogar mais por dentro, e a novidade transformou-se em sucesso. Terminada a época, o conto de fadas parecia ter tudo para continuar.

Decorria já 2019/20 quando Sérgio Conceição deixou a nu as fragilidades do adversário. O corredor central, que tinha catapultado o Benfica para o título na época anterior, foi selado a sete chaves, e Lage acabaria por conhecer o sabor da derrota no campeonato, precisamente na casa do rival. A partir daí, várias equipas montaram a sua estratégia defensiva tendo por base a ocupação desse espaço. À medida que o tempo ia passando, o Benfica foi-se ressentindo da falta de soluções. Em momentos de desespero, Lage até deu sinal à equipa para que cruzasse – ou, melhor dizendo, despejasse – bolas para área, sem nexo, sem timing e, arriscaria eu, sem treinos que tivessem servido de ensaio a tal aberração. O seu Benfica foi, por isso, desvanecendo aos poucos, viciado no seu próprio veneno que, outrora, havia sido a cura.

Sérgio Conceição, no rescaldo do SL Benfica 0-2 FC Porto de 2019/20 (ver 0:59)

“Temos inteligência suficiente para perceber que o jogo está sempre em evolução. Se pararmos no tempo, ficamos iguais aos outros e nós não queremos ser iguais aos outros, queremos ser diferenciados”. É assim, também, que o novo treinador do Sporting Clube de Braga vai encarar a época 2020/21, em busca de construir uma “equipa completa”, que não se baseia num sistema de jogo e em que “a identidade é a flexibilidade“.

Carlos Carvalhal in Tribuna Expresso

As equipas de futebol não são nada mais, nada menos, que sistemas caóticos determinísticos, pois apresentam padrões de (inter)ação que se repetem no tempo, denominados invariantes ou regularidades (Oliveira, 2004). Isto significa que, no meio da desordem (caos), as equipas devem tentar impor (a sua) ordem, procurando jogar dentro dos seus macro-referenciais. Simultaneamente, é fundamental respeitar o caráter caótico do jogo e as situações que deste emergem e, em função das circunstâncias, tomar uma decisão de entre várias possíveis, sendo que esta modelação se dá através do processo de treino. Tal como referi num artigo recente, procurar atingir a máxima variabilidade na máxima redundância.

Quem nunca se debateu sobre a melhor forma de passar a sua ideia de jogo do papel para a prática? Existem jogadas totalmente mecânicas, sub-dinâmicas predefinidas e outros métodos que eu possa não estar agora a vislumbrar. Contudo, permitam-me discordar da vossa visão, se esse for o caso, mas estão a fazer do futebol um jogo de Tétris. Quadrado. Matemático. Exato. O desrespeito pelo caos é por demais evidente, e reduzir uma infinidade de caminhos para se jogar apenas de determinada forma é o primeiro passo para o abismo. Para fazer face às adversidades, é fundamental que, cada vez mais, o nosso jogar englobe vários tipos de jogares!

Disse recentemente o Brian Laudrup (um dos autores do Lateral), que “não é crime fazer cruzamentos”. Ora, se olharmos para a declaração de Carvalhal, que define a identidade do Braga como sendo a flexibilidade (e eu juro que, numa das recentes entrevistas, ele até usou mesmo o termo “variabilidade”!), podemos perceber que o grande problema tático do Benfica passa por não conseguir arranjar outras formas de desequilíbrio para além do jogo interior. No fundo, é tudo menos flexível, variável.

Não há maior sinal de loucura do que fazer uma coisa repetidamente e esperar a cada vez um resultado diferente.

Einstein

De facto, este fetiche tem repercussões a vários níveis. Com as organizações defensivas cada vez mais fortes nos dias que correm, o preço por metro quadrado ficou mais caro. O Vitória SC que vimos neste último jogo para a Taça da Liga foi uma autêntica muralha – ou, se preferirem, um castelo – que o Benfica nunca conseguiu superar em jogo corrido. O que não se entende é a insistência em jogar pelo meio quando este se encontra tão povoado. Parece que o jogo interior, com passes entre linhas, apoios frontais e as dinâmicas do terceiro homem, é o caminho único para a baliza. Mesmo quando a bola vai fora, todos os caminhos vão dar… ao meio. É como se o Benfica pudesse abrir várias portas, mas o treino só lhes dá uma chave, e isto tem impacto no subconsciente dos jogadores e, consequentemente, nas decisões que estes tomam em jogo.

Apesar do vício ter iniciado com Lage, é óbvio que Jorge Jesus não está isento de culpas. Como desculpa, tem o facto de, nos tempos em que vivemos, os microciclos se reduzirem quase que exclusivamente a treinos de recuperação, não dando grande margem para momentos aquisitivos e um acrescentar/potenciar da forma de jogar. No entanto, desde o início da época, o técnico campeão em título da Libertadores ainda não foi capaz de aportar ao jogo do Benfica outro tipo de soluções, de maneira a aumentar essa tal variabilidade de jogo que se veio a “afunilar” desde os tempos de Lage. O Benfica continua a ter os extremos por dentro (ou a virem de fora para dentro), os avançados por dentro, os laterais geralmente por fora (mas que raramente cruzam) e, mesmos os passes dos médios que tentam fazer a equipa chegar à frente, acabam por ser tentativas de rasgar o bloco do opositor, sendo Taarabt o caso mais paradgimático, ainda que com salpicos de qualidade. Quando a oportunidade para furar não surge, o Benfica faz a bola circular… e circular… e circular… Os espaços vão-se fechando, o ritmo do jogo baixa de primeira para ponto morto e, não raras vezes, chega a fazer marcha atrás. No final, a intenção mantém-se: tentar tabelas em verdadeiras cabines telefónicas, onde o espaço não existe. Não me ocorre outra palavra para descrever o atual futebol do Benfica que não seja “aborrecido”. Se nos lembrarmos que, em tempos, Jorge Jesus disse que este Benfica era um Ferrari, então parece que o Ferrari só alterna entre duas mudanças: o lento e o muito lento (e, nalguns dos momentos em que Gabriel pega na bola, chega mesmo a ficar parado).

O Todo é maior que a soma das partes.

Aristóteles

Outro dos pecados de Jesus é a forma como este ignora aquilo que os jogadores lhe podem dar – e, pior ainda, aquilo que eles não lhe podem dar! Pedir a Otamendi e a Vertonghen para estarem constantemente numa linha subida é, no mínimo, um sinal de atrevimento, já que baixar o bloco não parece sequer ser opção. Mais irreal é tentar que Weigl, Samaris ou Gabriel “comam” metros como faziam Matic ou Fejsa – que erro tremendo foi emprestar Florentino! – quando esse equilíbrio podia perfeitamente ser garantido num meio-campo a três, onde até Taarabt e Pizzi se sentiriam mais confortáveis para viverem no risco em zonas de criação, pois teriam dois “guarda-costas” a atuarem logo após a perda. Às vezes, o Todo pode ser menor que a soma das partes, pois a complexidade inerente ao futebol tem o condão de fazer de André Almeida um lateral direito muito bom para o nosso campeonato quando a sua equipa está bem, como, ao invés, banalizarem um Darwin ou apagarem um Waldschmidt quando o coletivo se mostra enleado numa desinspiração profunda.

Do ponto de vista individual, também existem várias lacunas. Além da qualidade técnica duvidosa de Gilberto e Nuno Tavares, Darwin Núñez só se sente como peixe na água quando é solicitado no espaço, pois erra as ações mais básicas – passe e receção – sempre que recebe nas apertadas entre linhas. A má definição de Rafa nos momentos de finalização, um retraído Cebolinha e um Waldschmidt cada vez mais desorientado também agravam a crise das águias. E, se pensarmos mais um pouco, exemplos não faltarão.

No meio de tantos palpites, talvez a resolução do grande problema tático do Benfica possa vir a refletir-se positivamente noutros aspetos. Prioritário, neste momento, é procurar outras formas de agredir a defesa contrária para além do jogo interior, que só permite a este Ferrari (ainda que com várias peças de marcas mais humildes) andar a duas velocidades. Porque não tirar partido dos espaços livres para “soltar” Rafa ou Darwin, destravando este Ferrari e conferindo-lhe mudanças com mais adrenalina? Poderá o uruguaio transformar cruzamentos em golos se for mais vezes solicitado pelo ar, assim como Seferovic? Será que Nuno Tavares, Diogo Gonçalves, Cebolinha e Pedrinho conseguiriam aumentar o seu número pessoal de assistências se o Benfica criasse mais situações de desequilíbrio pelos corredores laterais? Quando foi a última vez em que o Benfica contra-atacou com sucesso? Quem tem a ousadia de ir no um para um? São questões para as quais Jesus ainda não forjou qualquer resposta.

Se o seu modelo contemplar “vários tipos de jogares”, certamente que os seus intérpretes vão conseguir manifestar o que têm de melhor, alcançando assim a simbiose perfeita entre a ideia do treinador e a potenciação do talento dos jogadores. Neste momento, o Benfica continua à procura duma saída para este labirinto. Mas é melhor Jesus acelerar, ou este Ferrari corre sérios riscos de ter novo acidente.

Fontes:

Cabral, M. (12 de Agosto de 2020). Esta é a nova forma de Carlos Carvalhal pensar o treino e o jogo: “Os sistemas, aquilo que definimos como 4-4-2 e 4-3-3, são castradores”. Obtido de Tribuna Expresso: https://tribunaexpresso.pt/no-banco-com-os-misters/2020-08-12-Esta-e-a-nova-forma-de-Carlos-Carvalhal-pensar-o-treino-e-o-jogo-Os-sistemas-aquilo-que-definimos-como-4-4-2-e-4-3-3-sao-castradores

Oliveira, José. Conhecimento Específico em Futebol. Contributos para a definição de uma matriz dinâmica do processo de ensino-aprendizagem/treino do jogo. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto. Portugal, 2004.

Yaya Touré
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14 Comentários

  1. Parabéns pelo artigo.
    Parece-me óbvio que o Benfica, desde há uns 2 anos, tem um jogo de corredor muito limitado. Uma das explicações prende-se com a fraca qualidade dos jogadores para essas posições. No ano passado, como alas, jogavam o Rafa e o Pizzi. Se o Pizzi ainda tem algum rendimento ofensivo (golos e assistências) o Rafa é, infelizmente, um engano. E com os defesas laterais, como foi referido, os problemas ainda são maiores.

  2. Poderá o uruguaio transformar cruzamentos em golos se for mais vezes solicitado pelo ar, assim como Seferovic? Será que Nuno Tavares, Diogo Gonçalves, Cebolinha e Pedrinho conseguiriam aumentar o seu número pessoal de assistências se o Benfica criasse mais situações de desequilíbrio pelos corredores laterais? Quando foi a última vez em que o Benfica contra-atacou com sucesso? Quem tem a ousadia de ir no um para um? São questões para as quais Jesus ainda não forjou qualquer resposta.
    As questões que aqui estão, são as que como dizem, aqui um simples adepto de futebol tem feito nas N conversas de café, não consigo entender(porque apenas sou um apaixonado por futebol) como o Benfica pode chegar a um tipo de jogo mais próximo do que estava habituado com o Jorge Jesus… Começa faltar explicações a cada jogo que passa…

  3. Boa repescagem desse grande jogo que o FC Porto fez na Luz! Lembro-me como se fosse hoje.
    Duas notas que ressalvo desse passado ainda muito presente: a vontade que eu tenho em ver um 4-3-3, com Rafa e Cebolinha nas alas, e um meio campo mais coeso posicionalmente; e o toque de magia que João Félix deu a um campeonato que parecia perdido. O título de Bruno Lage foi ter posto o miúdo-maravilha, soltinho, naquela equipa.
    Continuação de bons textos!

  4. “Pedir a Otamendi e a Vertonghen para estarem constantemente numa linha subida é, no mínimo, um sinal de atrevimento, já que baixar o bloco não parece sequer ser opção. Mais irreal é tentar que Weigl, Samaris ou Gabriel “comam” metros como faziam Matic ou Fejsa – que erro tremendo foi emprestar Florentino!” Verdade! Basicamente o Jesus está a incutir o seu modelo nos jogadores errados. Penso que Gedson vem em Janeiro e é o único box-to-box que eu vejo encaixar no estilo de jogo do JJ, aquele medio que pega na bola e a transporta quase que até ao pé dos jogadores mais adiantados (como fazia Enzo por ex) e defensivamente forte nos duelos. O Tarabt também transporta bem a bola o problema é que mais á frente arrisca passes difíceis em vez de entregar fácil, que originam perdas perigosas num meio campo a dois. Por isso acho que Gedson pode ser a solução, mas continua a faltar um Florentino lá atrás. Na defesa acho que com a vinda de Verissimo o Benfica vai resolver o problema da defesa subida com Verthongen ou Jardel á esquerda. Gilberto ao qual fui muito critico tem estado bem e conseguido disfarçar bem os problemas individuais, a continuar assim nao acho que vá ser ele o problema do Benfica. O facto do Benfica procurar sempre combinações interiores penso que é a equipa a tentar esconder as debilidades tem no jogo aéreo, lembro me de neste jogo com o Guimaraes o Darwin falhar sozinho um cruzamento do Pedrinho mas também me lembro do Darwin na Polonia subir ao 3 andar e marcar um golaço de cabeça. Falta um Tiquinho ao Benfica que em cada 3 cruzamentos enfiava na baliza dois :D! Mas também acho que o Benfica já teve este época jogos muito bons, como em Famalicão, Vila do conde, em casa com o Moreirense, na Europa em casa teve jogos muito positivos. Nem tudo é mau. Acham que com um meio campo com Weigl e Gabriel com Pizzi mais á frente seria a melhor opção para o classico? Continuação de bom trabalho. Cumps

  5. O curioso é que o Benfica de JJ nunca teve medo de cruzar e facilmente nos lembramos de Coentrão, Salvio ou Gaitan a cruzar à linha. Não faltam golos de cabeça de Cardozo e Lima, até finalizações ao segundo poste de Saviola ou Salvio.

    • Vinha qui dizer o mesmo, mudou assim tanto o JJ? Confesso que no acompanhei no Brasil.

      Ou está o JJ a tentar focar-se em recuperar, treinar a parte defensiva e jogar?

      É que apesar de a linha estar melhor que o ano passado, ainda hoje se nota que no está como o JJ gosta, é ele sabe como implementar o seu método defensivo relativamente rápido. Mas claro que está a martelar a sua tática aos jogadores errados, Gabriel e Taarabt… Gabriel defensivamente ainda podia dar, mas ele pensa que tem um passe teleguiado

  6. Bom artigo, tenho só um reparo a partir do momento que do 11 de jj para o 11 do Bruno Lage variam 7 ou 6 jogadores, não me parece que o problema do jogo interior seja algo intrínseco da época anterior mas sim algo que é interiorizado pelos treinos do atual treinador. E no final destes meses é visível para todos o erro de dispensar Florentino, podia querer sair mas pela explicação já pública de Jesus são maioritariamente porque sabia que não seria um titular pra JJ, a questão é como não seria titular ? Vista a mediocridade do meio campo…

  7. Na verdade, nao podia concordar mais. O artigo esta excelente, super completo.

    Jesus tem sido uma enorme desilusao, inflexivel por natureza, nao mexe no sistema e nao tenta sequer algumas nuances e variacoes, que poderiam, pelo menos, ser exploradas. para ver no que dava. Diria mesmo que a unica coisa em que Jesus. acertou ate ao momento foi retirar Pizzi da linha e coloca-lo a jogar como SA.

    Alem da inflexibilidade, outra coisa que irrita profundamente e a fixacao com certas coisas, como a altura minima dos jogadores que ele acha que devem ter em certas posicoes. Essa fixacao com certas caracteristicas fisicas faz com que se insista em determinados jogadores que nao tem o minimo, diria de nocao, com bola.

    – Gostava de ver um 433, eventualmente com Weigl como trinco, porque ja poderia usar toda a sua qualidade com bola sem andar “desamparado”, a tentar segurar um meio campo em 424, com laterais risorios e centrais a gasoleo. Ou entao, regressando o Tino, colocar Weigl perto dele e Pizzi a frente.
    – Gostava que se tentasse colocar Taraabt na linha, como faziam com Pizzi. E um jogador mais reactivo sem bola, e mesmo mostrando debilidades nesse momento a jogar no centro, seria mais facil perceber o que tem que fazer sem bola na ala, porque e mais simples. Alem disso, e igualmente capaz, como Pizzi, com bola, e tem muit menos golo que este ultimo, pelo que encostar na lateral nao lhe retira algo muito importante. Se a isso juntarmos Tino no meio, como 6, e Chiquinho como 8, mais Everton/Rafa a esquerda, ficariamos mais “compensados”. Gostava de ver testado, nao quer dizer que resulte.
    – 343 tambem nao seria mau pensado, e sinceramente, quer os alas, Grimaldo e Diogo, quer os centrais, ficariam mais amparados nesse sistema.

    Regressem Gedson e Tino, e entre la o central… no minimo, em Janeiro. No entanto, o problema maior do Benfica passa pelo topo da hierarquia, e enquanto nao for resolvido, e tivermos um presidente e director desportivo competentes, nunca iremos comprar o que a equipa precisa, mas sim o que “distribui mais rendimentos”.

  8. Sinceramente, acho que o problema do Benfica não passa tanto pelo jogo ofensivo, mas sim pelo defensivo. Todos sabemos a segurança que dá ter uma defesa mais coesa. Primeiro porque não se sofre tantos golos, e segundo porque dá confiança aos homens da frente para se exprimirem sem medo de perder a bola e gerar um contra golpe letal.

    O facto do Benfica ter vindo a sofrer golos consecutivamente, está diretamente relacionado com o facto de começar a marcar pouco. Contra equipas defendem em bloco baixo, é sempre difícil marcar, mais difícil é quando o Benfica não “sufoca” o adversário com medo que uma transição dê em golo. Isto vê-se no posicionamento dos laterais, o medo deles subirem no terreno, irem à linha para tirar um cruzamento. Apenas Grimaldo me parece mais destemido, porque também terá indicações para tal.

    Porque se repararmos, o Benfica em organização ofensiva, tenta preparar a transição defensiva através do lateral do lado oposto, trinco e centrais. Quantas vezes vemos Gilberto a jogar ao lado de Gabriel como um médio centro?

    Porque é que isto acontece? Porque temos Pizzi ou Taarabt constantemente perdidos nas entrelinhas (apertadas) dos adversários. Isso não só destapa o corredor central, como afunila o jogo do Benfica. Porque para colmatar a falta de 1 médio, um dos laterais joga sempre retraído e não só, faz com que a equipa procure as referências no corredor central (Pizzi ou Taarabt) como meio de entrar dentro da grande área.

    O Benfica só começa a carborar quando começam a sair cruzamentos tensos, que obrigam os defesas a terem dificuldades em aliviar a bola, que nos possibilita recuperar bolas à frente da área e desposiciona de certa forma o bloco defensivo.

    Mas tudo isto vem da forma como defendemos. Ao jogar em losango com um médio ofensivo à frente do trinco, faz com que Weigl ou Taarabt se encontrem constantemente sozinhos a tentar limpar toda a zona em frente aos centrais. E depois claro, tal como aconteceu com Braga, ou Guimarães, qualquer pontapé pra frente é perigoso. Porque quando um Vertonghen ou Otamendi cabeceiam para limpar, a bola sobra com mais facilidade para um dos 3 médios adversários que estão constantemente em superioridade numérica frente ao nosso trinco. Não tem grande ciência explicar isto.

    A solução passa por jogar com um médio que não se enfie tanto no bloco defensivo adversário e que jogue à largura à frente da linha média para poder potenciar a profundidade do lateral, ou até do extremo. Estando de frente para o jogo, permite-lhe também ajudar na transição defensiva onde pode apoiar o médio mais recuado.

  9. Certeiro, mais uma vez. Excelente análise. A ir um pouco ao encontro do comentário que deixei no texto “Eu passo. Tu passas. Ele marca.”, mas que foi apagado.
    O Benfica, tal como a maioria das equipas, cedeu à tal uniformização do futebol atual. Todos querem jogar da mesma forma: exacerbação do jogo interior (numa altura em que as equipas sobrepovoam cada vez mais o centro do terreno a defender), extremos sempre por dentro (assim sendo, devem continuar a ser considerados extremos?) e pouca liberdade nas iniciativas 1×1.
    Jogo uniformizado e jogadores robotizados.
    Parabéns pela brilhante análise, Yaya.

  10. O caos deteminístico dum sistema, nas ciências naturais, é definido como a perda crescente (ao longo do tempo) de conhecimento do estado desse sistema, mesmo conhecendo-se todas as forças que operam entre os componentes. Porque só isso não é suficiente, é também necessário: 1 – que todos os componentes sejam conhecidos com precisão absoluta; 2 – que o cálculo da acção combinada das forças seja possível de calcular com precisão absoluta.

    No caso de um ser humano a jogar à bola, não conhecemos as forças internas ao detalhe, e é melhor fugir de dos doidos que tenham tal ambição. Assim, o caos determinístico pura e simplesmente não existe num campo da bola.

    Agora, se pegarmos no conceito da corrida-às-armas – em que o exemplo que me ocorre vem da leitura na infância dum livro do Julio Verne, da disputa entre dois construtores, um de chapa blindada naval, e o outro de canhões, mas que classicamente vem da biologia, da relação antagonística de espécies, aí tem pano para mangas.
    Recomendo mais precisamente o a exploração deste conceito, também designado por coevolução ou, mais evocativo ainda, evolução competitiva, no caso de concepções tácticas. E, muito importante, com mais de dois jogadores (treinadores). Exemplo, Mourinho (Contrataque rápido) vs. Guardiola (Posse). O próprio Mourinho disse quando o Pep chegou ao MC estando ele no MU (ou foi ele que chegou ao MU) ´Se nós no focar-mos um no outro, iremos perder para terceiros´. Isto sim, é muito mais fecundo.

  11. Parabéns pelo excelente artigo de opinião/análise. Acho que a este Benfica falta muita coisa, e qdo assim é, a culpa está no treinador, ou porque não consegue passar as suas ideias ou pq as suas ideias não são boas ideias.

    É muito bonito conseguir meter no meio campo adversário entre 6 a 7 jogadores à frente da linha da bola, mas dps não existe dinâmica na frente de ataque, os jogadores estão estáticos nas suas posições e claro a circulação da bola é feita em posse e raramente com objectividade do golo. Para além disso os actuais jogadores não têm confiança ora pq o numero de adversários à sua frente são imensos, ora pq o actual momento do Benfica não dá confiança a nenhum jogador.

    Além disso este facto de ter mts jogadores no campo adversário à frente da linha da bola e o suposto numero 8 jogar mtas xs entre linhas, faz com que a transição defensiva não esteja assegurada e dps é ver o Benfica a defender em mtas situações em desvantagem numérica ou em igualdade numérica o que é na maioria das xs fatal para a equipa q defende.

    Outro dos problemas deste Benfica é a falta de qualidade no passe e recepção. Gabriel é, na minha opinião, horrivel na recepção (precisa de 3 a 4 toques para receber uma bola) e no passe onde arrisca excessivamente no passe longo e/ou de ruptura.

    A velocidade de circulação da bola tb é outro aspecto a melhorar e o Gabriel contribui bastante para este problema, ams não é o uníco.

    Enfim… vejo mto para melhorar neste Benfica. E sinceramente, ou o JJ muda um pco as suas ideias para este Benfica (com estes jogadores) ou arrisca-se a ficar fora dos 3 primeiros.

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