O jogo mais importante da nossas vidas não é jogado por robots. Basta.

Este texto não é “mais um” que escrevo de análise, conhecimento tático ou exclusivamente sobre o jogo dentro das quatro linhas: é , na minha humilde opinião, sobre algo ainda mais importante e que nos afeta a todos. Desde que nascemos, grande parte dos nossos fins-de-semana são passados a ver futebol, e a admirar quem o pratica. Os jogadores são a base deste jogo que nos apaixona há muito tempo, são os atores principais, as estrelas de rock e a cor numa tela que, infelizmente, muitas vezes é mais cinza do que colorida. Com a popularidade e notoriedade que o futebol ganhou, ser futebolista profissional passou a ser um privilégio ainda maior: os melhores futebolistas recebem salários bastante acima da média do “cidadão comum”, alguns são milionários e têm vidas e condições que muitos de nós nunca iremos ter. Com isso, a responsabilidade para os jogadores aumentou. A responsabilidade ao atuar por um clube, em representar um povo e todos os miúdos que sempre sonharam em estar naquela posição e nunca o conseguiram, a responsabilidade de serem exemplos para os milhões de pessoas que os seguem, dentro e fora do campo. No entanto, o dinheiro, a fama e a responsabilidade não desculpam tudo, nem podem desculpar tudo no que toca a apontar dedos e culpabilizar um ser humano por algo tão irrelevante na vida como um resultado de um jogo de futebol (a coisa mais importante das menos importantes da vida, como se costuma dizer).

Esta semana foi uma semana negra. Na era das redes sociais, os meios das oportunidades e a que tanto devemos, o insulto gratuito e o acesso aos jogadores nunca foi maior, ao contrário do que se pode achar. Depois do derby em Alvalade, alguns jogadores do Benfica tiveram que eliminar as suas contas de redes sociais por causa de assédio, insultos e ameaças de morte (incluindo Darwin Nunez, que no passado já admitiu sofrer de ansiedade e problemas psicológicos por abusos semelhantes). Em Inglaterra, jogadores do United e do Chelsea foram alvo de racismo nas redes sociais. Isto acontece semana após semana, ano após ano, com a ideia de que os jogadores passam ao lado disto tudo e que “com o dinheiro que ganham só têm é que aguentar as críticas”. Mais uma vez, o dinheiro não é tudo, o dinheiro não justifica tudo. Depois de um dos anos mais difíceis das últimas décadas, os jogadores também passaram por quase tudo o que nós passamos: confinados, afastados de familiares, familiares que morreram, piores condições de trabalho, etc. O mito de que o jogador de futebol é imune a problemas como ansiedade, depressão ou solidão ainda existe, mas não depende só deles ultrapassar este mito. Deixo umas palavras emocionantes sobre a depressão e problemas da vida de Ramón Ábila, jogador do Boca Juniors que durante o último ano perdeu a mãe e o irmão, que nos deviam fazer refletir:

Neste sábado, chegou-nos a notícia trágica da morte de Morro Garcia, jogador internacional uruguaio que aos 30 anos se suicidou (motivos desconhecidos, mas o jogador sofria de depressão) . Uma notícia que ninguém quer dar, ninguém quer falar, mas que tem que ser pensada e avaliada como algo muito mais próximo da realidade de muitos futebolistas do que aquilo que pensamos. Os jogadores não são, nem têm que ser, robots. O futebol não é nada sem os jogadores, e acredito que também não o é sem adeptos, havendo bons e maus em ambas as categorias. É para estes mesmos que me dirijo agora: antes de criticarem e insultarem nas redes sociais, pensem. Antes de invadirem centros de estágio, pensem. Antes de atacarem autocarros de equipas, pensem. Antes de se achar que o resultado de um mero jogo de futebol é o mais importante na vida, pensem nas consequências dos atos que podem custar a vida a um jogador que é pai, filho, amigo, e apenas um ser humano a fazer o seu trabalho.

O jogo mais importante da nossas vidas não é jogado por robots. Basta, antes que aconteçam mais tragédias.

(Pedir ajuda não é nada mais do que um ato de coragem enorme.Existem vários meios para quem precisa de ajuda, eixamos então alguns desses números e links:

Centro SOS-Voz Amiga: ajuda na solidão, ansiedade, depressão e risco de suicídio
Telef.: 21 354 45 45 – Diariamente das 16 às 24h
Telef.: 91 280 26 69 – Diariamente das 16 às 24h
Telef.: 96 352 46 60 – Diariamente das 16 às 24h
website: www.sosvozamiga.org
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Sobre RobertPires 55 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

4 Comentários

  1. Aqui entre nós, a utilização da expressão “racismo gratuito” é apenas infeliz. Independentemente das intenções (ou falta delas), digamos que racismo e violência e/ou sexo (para buscar as duas palavras mais vezes associadas a algo eventualmente considerado gratuito) não se equiparam. Há instâncias em que a violência, infelizmente, é o último recurso, depois de tudo o resto não resultar – logo, justifica-se. E o sexo, quando consensual, é tudo menos gratuito – é até uma necessidade fisiológica importante.
    Racismo e/ou preconceito racial (sim, há diferenças)? Não há contexto que justifique qualquer uma delas, ponto final, parágrafo.
    Enfim, uma chamada de atenção, que até tem a ver com o tópico. Pois a ideia central é uma: as palavras importam. E o tom, obviamente, também.

    • Ricardo, toda a razão e foi uma “gralha” que passou despercebida. Esperamos que a mensagem tenha passado, isso sim o mais importante.
      Abraço

  2. Por isso é que deixei de acompanhar futebol. Deixei de ver pela televisão, nunca acompanhei os (inenarráveis) programas de comentários, removi das redes sociais todas as páginas relacionadas, não me envolvo em discussões de arbitragens, e deixei de olhar para a banca de jornais. À medida que me fui afastando de todo o circo envolvente, comecei a perceber toda a profunda estupidez em que está mergulhado o desporto, e da qual, na verdade, é muito difícil escapar. Repare-se que ainda esta semana tiveram mais um exemplo, e este dos mais mesquinhos e revoltantes que se possa imaginar, quando um jogador de uma equipa caiu inanimado no relvado após um choque e a preocupação dos próprios colegas da equipa – sim, dos próprios colegas – foi berrar que era penalti, e culpar o árbitro por não marcar penalti, e reclamar que era um penalti claríssimo que mais uma vez não foi marcado. Dá para entender o quâo revoltante é isto? Não dá.

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