De Zerbi e o Sassuolo – Construir ainda é uma arte

Depois de um inicio de temporada muito interessante com intromissão entre os primeiros lugares da Série A, o Sassuolo de Roberto de Zerbi acabou por realizar um campeonato tranquilo na metade superior da tabela (atualmente em 8º lugar, apenas superado pelos “grandes”) mas chamando a si algum protagonismo pelas características particulares do seu jogar, conseguindo-o pela concretização em campo de um modelo de posse muito agradável de se observar (estão no topo da competição no que toca a percentagem de posse, com um jogo muito angulado para o corredor central – ver imagem abaixo) e que não passou despercebido mesmo fora do Calcio, com o Shakhtar Donetsk a estar muito perto de assegurar o concurso do treinador italiano para a próxima época, substituindo assim Luís Castro. De Zerbi é hoje em dia, de facto, um dos treinadores da moda em Itália, com vários admiradores e com o mesmo a receber com frequência visitas dos cursos de treinadores da UEFA para demonstrações da sua metodologia de treino. E tudo começou com uma visita do italiano a um estágio do FC Bayern de Guardiola em 2013, onde cristalizou a sua ideia para o jogo.

“O De Zerbi pode alterar os jogadores que iniciam a construção dependendo do adversário mas ele nunca muda os princípios. A ideia da equipa permanece constante. O princípio fundamental do futebol dele é que a sua equipa domine o jogo construindo a partir de trás e mantendo a bola a rolar pelo chão. É um estilo de jogo muito ambicioso e a influência de Guardiola é clara. Quer sempre atacar com 5 ou 6 jogadores. Quer envolver os laterais. Usar toda a largura do campo. A ideia é sempre sobrelotar o meio-campo adversário com o máximo de jogadores possível. Se calhar é por isso que mesmo quando ganham, por vezes sofrem alguns golos. Se calhar é um risco mas são os princípios de jogo dele e leva-os até ao fim. “

Ex-analista de De Zerbi

O presente artigo debruça-se então essencialmente sobre o momento de organização ofensiva do modelo do Sassuolo, particularmente nas nuances e subprincípios da fase I (construção). Partindo da sua estrutura base em 1-4-3-3, o modelo conceptualiza uma construção apoiada curta recorrendo ao jogo de posição, com utilização da largura total do terreno apenas por um jogador, primeiro(s) médio(s) de suporte nas costas da primeira pressão e com duas grandes variantes em corredor central: saída em 2+3 em corredor central, com um dos laterais a entrar em jogo interior para o lado dos médios e a largura a ser dada de forma assimétrica (extremo por fora e lateral por dentro na construção de um lado, lateral por fora e extremo por dentro do outro); ou saída em 3+1 (saída em losango), com um dos médios (normalmente Locatelli) a baixar entre os centrais e os laterais a darem a largura em profundidade e os dois extremos a entrarem em jogo interior em simultâneo. A possibilidade de saída nestas duas formas permite uma adaptação constante à pressão contrária mesmo dentro do mesmo jogo (no vídeo abaixo ocorre mesmo uma situação em que, na mesma sequência de posse, a equipa sai em 2+3 e sofre uma pressão de encaixe em 3+2 e alterna para o 3+1 após circulação para o GR, permitindo assim a saída) – é esta adaptabilidade constante aos constrangimentos do jogo que se acredita que seja um traço das equipas do futuro.

Sobre Juan Román Riquelme 63 artigos
Analista de performance em contexto de formação e de seniores. Fanático pela sinergia: análise - treino - jogo.

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