Ainda é pior perder a ser mau no que “escolhemos ser”

Portugal foi eliminado do Europeu. (Mais) uma prestação que deixa muito a desejar, com falhas individuais e coletivas que acabam por não se aceitar a este nível, incluindo as decisões e a liderança vinda do banco. Há 2 opções para analisar esta seleção de Fernando Santos: analisar aquilo que podia ser caso tivesse a ideia de jogo x/y/z (algo mais hipotético de uma equipa dominadora com bola, com Félix, Bernardo e Bruno a liderar a seleção), ou analisar perante aquilo que Fernando Santos e a sua equipa técnica escolheram ser (pragmáticos, sólidos defensivamente e a privilegiar quase sempre o momento defensivo e o contra-ataque. Destas duas, muito se falou e tem falado da primeira, do que podíamos ser e não somos, do desperdício que é ter Bruno Fernandes e Félix no banco, e da incapacidade de uma seleção com talento mundial para se afirmar como tal, tendo até uma mentalidade pequena e quase “provinciana” perante equipas que em nada a superam. Concordo com tudo isto, mas acho de certa forma irrealista/injusto avaliar a prestação neste Europeu nesse sentido, sabendo que Fernando Santos é o treinador e que há 7 anos que segue a mesma filosofia.

Viro-me então para aquilo que “escolhemos ser”: uma equipa que, na teoria, defende bem, garante a baliza inviolável e que, sabendo que o empate está quase sempre garantido quando não se sofre golos, um golo marcado normalmente resolve essa questão (como vimos em 2016). A verdade é que Portugal tem estado muito longe desta ideia: concedeu oportunidades flagrantes em todos os jogos (a Hungria teve um golo anulado com o resultado 0-0), mostrou incapacidade para pressionar, algo que parte muito de ter um avançado como Ronaldo (36 anos) na frente de ataque, e mostrou também que mesmo de forma organizada, acabou por ser muito fácil encontrar espaço nas costas da linha defensiva portuguesa (a este nível haver 3 ou 4 lances destes num jogo é “pedir para sofrer”): foi assim com a Alemanha, com França e mesmo ontem com a Bélgica foi assim até ao golo sofrido. Portugal preferiu quase sempre dar iniciativa do jogo com bola ao adversário, algo legitimo e que faz parte da sua ideia de jogo, mas não havendo capacidade nem qualidade para pressionar o portador da bola, e tendo uma linha defensiva desinspirada durante o Europeu, a verdade é que recuar no terreno foi quase sempre um convite para as equipas adversárias estarem demasiado confortáveis no jogo, principalmente quando vimos Bernardo e Jota a serem forçados a defender tão recuados durante largos períodos dos jogos.

Desta maneira, e porque os momentos de jogo estão todos ligados, não existia nem qualidade para deixar de estar no momento defensivo (roubar a bola, pressionar e perturbar a posse do adversário), como também raramente existiram momentos para sair de forma apoiada em transição (houve um lance contra a Alemanha, um contra a França e um contra a Bélgica). Ora, se a ideia de Portugal era ter uma oportunidade clara em transição por jogo, isso significa que voltamos a estratégia inicial: não sofrer. Isto, tirando o jogo contra a Hungria, nunca aconteceu, o que me leva ao título do artigo: independentemente do que podíamos ser com toda a qualidade que temos no grupo, o pior mesmo é perder a ser mau no que escolhemos ser. Deixo então os últimos dois golos sofridos por Portugal, que mostram várias dessas limitações defensivas mostradas ao longo do Europeu, visíveis através do plano aberto que não vemos nas transmissões televisivas:

Os nossos Videos são criados com

Sobre RobertPires 69 artigos
Rodrigo Carvalho. 23 anos, experiência como treinador adjunto e analista em equipas séniores em Portugal e nos Estados Unidos. Passou pela Federação de Futebol dos Estados Unidos no departamento de Formação de Treinadores. Em colaboração com a Proscout, trabalhou diretamente com equipas técnicas profissionais e produziu relatórios de jogadores. Podem seguir muito do seu trabalho em @rodrigoccc97 no Twitter.

7 Comentários

  1. Desde já, dizer que adoro a precisão e o aprofundamento incisivo das suas análises. Sendo eu um “viciado”, não-académico, da ciência e erudição que perfuma o (bom) futebol, estou bastante desiludido, não pela eliminação da Seleção, mas porque pela enésima vez, Fernando Santos decide que o jogo jogado é que tem de se adaptar ao plano e não é o plano a adaptar se ao que se está a jogar. Passo a explicar, com incidência na vertente ofensiva: Raphael Guerreiro, na primeira parte, nunca forçou (porque era esse o plano!) uma exploração da profundidade (Dalot foi muito incisivo, em comparação) que lhe foi, gritantemente (eu gritei bastante), “oferecida” pelo ala-direito belga, Mounier. Este, cheio de dúvidas e hesitações, para “ler” o momento certo para encostar aos centrais (quando Diogo Jota se juntava a Ronaldo, no meio) ou ficar aberto para “tapar” o lateral português- que não subia-, permitiu muitas vezes que o flanco parecesse uma autoestrada de oportunidades, para ferir a, pouca, mobilidade e capacidade de cobertura dos centrais belgas. A variação rápida do centro de jogo, o uso do passe médio-longo, a amarra óbvia de Guerreiro ao posicionamento da linha defensiva portuguesa…todos estes aspetos importantes, foram de um nível confrangedor o que, para mim, se revelou decisivo nas escassas ações ofensivas que Portugal construiu, enquanto o empate se manteve.

  2. Explica lá em palavras simples como é que vais ganhar um torneio em que trabalhas durante 3 semanas, começas a competir com todo o desgaste físico e mental acumulado de uma época, para alguns vitoriosa para outros nem por isso e colocas no mesmo onze Bernardo, Félix (parece que estava lesionado mas lá tentaram, em desespero, usar a qualidade superior do menino) Fernandes a juntar a Ronaldo… Gostava de ver ganhar o que quer que seja assim! 4 gajos que nem o meio sabem fechar quando a equipa adversária está na 1a fase de construção… Depois tinhas de meter lá o Bulo que apesar de ser um jogador contagiante é cheio de lacunas sem bola principalmente a fechar os tais espaços centrais. Ia ser lindo… Agora quem ler este artigo de opinião e não tenha visto o jogo vai pensar que fomos atropelados por um camião belga e que perdemos contra um papão que se fartou de jogar à bola. Menos mister!

    • Então, se há esse desgaste todo e tão poucochinho tempo de treino, porquê apostar nos mesmos? Porquê insistir em modelos de difícil execução? Perdemos contra um futebol feliz, sem complexos nem pruridos.

  3. Que grande texto, finalmente a meter os pontos nos iis.
    Incronguências de Fernando Santos: “querer ter bola”, bla bla bla.
    Fazemos tudo para ter o Ronaldo dos recordes, e é com a apologia saloia dos recordes, com conferências de imprensa absurdas para embalar, que somos eliminados. É preciso tirar consequências disto: um treinador estrangeiro, que não tenha medo de sentar no banco os que não dão para o modelo – curioso ter visto Luís Enrique a sentar Thiago, Rodri, entre outros, contra a Croácia (onde até Modric foi substituído, exausto!).

    • Percebe-se bem a saloiice de quem comanda a selecção quando ainda insiste que a marcação de livres fique com o Cristiano Ronaldo, dos quais é um péssimo marcador. Mas quando lá acontece a bola dirigir-se para a baliza, dá um belo efeito e permite aquela voltinha no ar.

1 Trackback / Pingback

  1. O último terço | Lateral Esquerdo

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*