11 para 0: da criatividade à necessidade

Treino de futebol

Utilizado por vários treinadores, o famoso 11 para 0 representa uma poderosa arma que, quando nas “mãos erradas”, poderá até jogar contra nós.

Alfred Nobel lamentou que sua invenção, a dinamite, tenha sido convertida para uso degradante, daí sua criação do Prémio Nobel, como o contra-ataque humanista ao poder destrutivo de seu génio.

Wole Soyinka, vencedor do Prémio Nobel da Literatura 1986

Reza a história que Alfred Nobel, inventor da dinamite, ficou profundamente frustrado quando soube que a sua criação não estava a ser utilizada para os fins que o químico sueco anteviu, como a exploração de minas ou a construção de estradas. Ao invés, a dinamite havia sido usado de forma indevida e tornara-se uma autêntica arma de guerra.

Serve esta descrição, ainda que algo “fatalista”, como metáfora para aquilo que pode acontecer quando se aplica o 11 para 0 no processo de treino. De facto, como já referi em artigos anteriores, definir subprincípios do modelo de jogo antes de perceber aquilo que os jogadores poderão dar através da sua própria interpretação dos macro-referenciais, pode funcionar como uma “venda” que tapará outros caminhos. Caminhos que nem o próprio treinador pode ter contemplado à priori!

Na operacionalização do exercício que abordo neste artigo, que impacto poderá ter a definição de que são os laterais que ficam por fora e os extremos que ficam por dentro? Talvez porque, no caos do jogo, haverão sempre momentos em que a melhor opção é estarem precisamente ao contrário. Para isso, é necessário dotar os jogadores de capacidade para lerem o jogo, de forma a que eles próprios se possam ajustar da melhor forma às infinitas e complexas combinações do que acontece no jogo. É preciso dar-lhes o contexto, para que eles possam encontrar a solução. Ora, o 11 para 0 pode dar a solução, mas nunca abrangerá todo e qualquer contexto (leia-se, situação de jogo).

Além disso, a definição destes subprincípios à priori obriga a que os jogadores tenham de recorrer, pelo menos numa primeira fase, a um pensamento mais consciente, que requer mais tempo e concentração e que, por conseguinte, gera maior desgaste. Ora, sem esta definição do lado posicional face à bola, como acontece no 11 para 0, o subconsciente torna-se dominante, o que significa que a leitura do jogo e consequente ajuste por parte dos jogadores será acionado de uma forma espontânea, sem nunca perder de vista os macro-referenciais da ideia de jogo do treinador.

Não podia terminar este artigo sem realçar a grande vantagem do 11 para 0 que, apesar de poder comprometer a criatividade dos jogadores de alguma forma, bem como a possibilidade de serem os mesmos a ler o jogo autonomamente, também encerra em si um poder de aceleração do processo de assimilação enorme! Pois é mais fácil retirar do jogo toda a sua propriedade caótica e avançar com um exercício totalmente objetivo, para explicar o que nós, treinadores, queremos. Este fechar de possibilidades pode, numa fase inicial, catapultar o nosso jogo posicional para um nível mais avançado, ainda que algo “mecanizado” e sem a capacidade de poder responder a todo e qualquer constrangimento do nosso adversário.

A riqueza do Modelo passa por isso, pela possibilidade de contemplar a novidade sem perda de identidade e simultaneamente sem cristalização.

Jorge Maciel

Sensibilidade. É esta que “determina” o que está certo ou errado para toda e qualquer situação que nasça na fronteira do caos. Por isso, o 11 para 0 – ou suas variantes – poderão ser úteis para fechar subprincípios bastante específicos que poderão suportar um modelo de jogo, como a articulação da linha defensiva, que se torna fácil de entender quando operacionalizada de forma analítica, quanto mais não seja pela imagética do próprio exercício.

Sensibilidade. É também a senhora do nosso bom senso enquanto treinadores, que nos diz que o recurso sistemático ao 11 para 0 pode atrofiar o seu entendimento do jogo e, no limite, “cristalizar” o próprio modelo, que se tornará unívoco, órfão de novos estímulos e capaz de responder a um número bastante limitado da infinidade do caos.

Comprometer a capacidade criativa dos jogadores é querer antecipar e escrever o futuro por eles… mesmo quando não sabemos o que nos trará o futuro.

Um recluso sem livros e tinta já é um homem morto.

Alfred Nobel
Sobre Yaya Touré 29 artigos
Amante do treino. Pensador do jogo. 💡

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